Movimento Monetário Mosaico

2.5 - Crédito e Garantia

        Segundo o dicionário, "crédito" significa prova de confiança dada a alguém, a quem não se tem motivo para desconfiar; segurança na verdade de alguma coisa" (Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Aurélio Buarque de Holanda. Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1º Edição:)
Neste capitulo queremos brevemente explorar os temas da confiança e do respaldo em respeito ao tema dos créditos.

Crédito e confiança

        É a incerteza em relação ao outro ou a desconfiança sobre a capacidade que este outro tem honrar seus compromissos que afeta seriamente a confiança das pessoas que investem no setor produtivo provocando comportamentos de precaução e retração que bloqueiam novos investimentos.

        A existência de arquipélagos de desenvolvimento e de desertos monetários apenas demonstram que a confiança junto com o crédito são os elementos necessários que respaldam a atividade econômica.

        Dito de outro modo, confiança é o processo pelo qual as pessoas estabelecem comportamentos intencionais de oposição ao individualismo e as atitudes egoístas com o propósito explicito de estabelecer formas de cooperação e o crédito traduz contrapartidas reciprocas para superar situações de carência e/ou desvantajosas decorrentes da aplicação radical das leis do mercado que lesam a dignidade da pessoa humana.

        A falta de um respaldo sócio econômico concorre para a falta de crédito e, consequentemente, na falta de dinheiro para as pessoas, grupos ou comunidades.

         E, quando as pessoas ficam sem instrumento para mudar, investir no processo produtivo, o crédito deixa de ser um instrumento capaz de promover o desenvolvimento para ser um instrumento de controle social cujo caráter predador se evidencia no seu fluxo: deixar o creditado (quem recebe) num "eterno presente" de carência porque o dinheiro flui através das amortizações do empréstimo para o credor (quem empresta).

        Os juros cobrados nas regiões pobres são muitas vezes superiores aos cobrados em regiões desenvolvidas, tornando quase impossível qualquer nova atividade econômica.

        Esta espiral de miséria é alimentada por custos bancários mais elevados cujos riscos são maiores também em função da fragilidade econômica.

        E assim nos enredamos no "eterno presente", pois o crédito com juros elevados são geradores de inflação que por sua vez concorre para uma menor atividade econômica e, portanto, maior risco, etc.

        Nesse sentido, faz-se necessário nos darmos conta da falácia do crédito. Primeiro porque o valor de crédito está baseado no valor de mercado ao invés do valor inerente que decorre do processo produtivo. É por isso que o crédito se concentra em regiões com elevado valor de mercado na qual grupos, pessoas ou empresas conseguem dinheiro com facilidade, enquanto falta de crédito para pessoas, grupos ou empresas com boas idéias e com excelente capacidade técnico produtiva; impossibilitando de fazer florescer uma atividade.

        Segundo porque a falta de crédito cria uma realidade negativa própria, isto é, uma espiral-de-impossibilidades na qual os investimentos por não se diferenciarem elas promovem atividades pouco especializadas ou complementares de modo que mobilizam um mercado local cuja característica maior está no pouco dinheiro para consumir localmente e, portanto, de difícil ampliação do processo produtivo e do bem-estar local.

        Estes dois elementos permitem entender que o respaldo do crédito não está nas garantias, mas pelo contrário na promoção generalizada do crédito.

        Crédito então, é baseado em garantia ou valores de produção na economia. E, por isso que só se confia em dinheiro que pode adquirir bens e serviços. Por isso só é concedido crédito ou para atividades produtivas, ou para alguém capaz de honrar seus compromissos. Em outras palavras, que tenha condições de garantir que o dinheiro de outros tenha rendimento em função da expectativa de lucro. Ter rendimentos ou possibilitar uma expectativa de lucro passa a ser uma garantia.

        É preciso ter presente que são nossas próprias capacidades de trabalho e bens são, portanto, a garantia do crédito, mesmo porque um banco pode cria dinheiro do nada, mas necessita de nossos valores (bens) para dar cobertura a este dinheiro.

        Aqui se visualiza um elemento chave no crédito que na maior parte das vezes é escamoteado pelo sistema financeiro: nossa própria capacidade produtiva (o trabalho) é a "garantia" dos créditos a serem recebidos.

        Nossos próprios valores são a garantia dos créditos.

Crédito é baseado em valores de produção na economia. Nós só confiamos em dinheiro que pode adquirir bens e serviços. Por isso só é concedido crédito ou para atividades produtivas, ou para alguém com um ingresso, rendimentos, uma garantia ou uma expectativa de lucro. Só quem tem a possibilidade de ter lucro obtém um credito para uma inversão, só quem tem uma casa obtém uma hipoteca e só quem tem um ingresso fixo obtém um cartão de credito. Nossas próprias possibilidades, bens e capacidades são, portanto, a garantia do crédito.

        O banco cria dinheiro do nada (veja capítulo 2.1), mas necessita de nossos valores para dar cobertura a este dinheiro. Mas nos pagamos juros ao banco! Isto é um conhecimento estratégico importante: os bancos são tão dependentes da economia real (para dar cobertura aos créditos) quanto a economia real é dependente do sistema financeiro (para a concessão dos créditos). Este ponto de vista pode ser utilizado, na Economia Solidária, para utilizar os próprios valores como garantia para a própria moeda.

        Isto é exatamente o que já acontece na prática da Moeda Social: se alguém quer participar dum Clube de Troca ele/a deve demonstrar, previamente, que tem capacidade de ganhar suas unidades internas. Assim, a própria produtividade é uma 'garantia' dos créditos a serem recebidos. Nas redes de transações entre empresas, como a WIR há necessidade de garantias adicionais. Numa rede de empresas, uma empresa se obriga, mediante contrato, a aceitar tantas unidades internas quantas a própria empresa gasta. Nestas dinâmicas são possíveis e necessários uma série de refinamentos conceituais (veja capítulo 4), mas o princípio é sempre o mesmo: ao invés de pedir a um banco para capitalizar nossos valores de pagar juros sobre o mesmo, a Economia Solidária nos ensina a basear nosso próprio meio de troca em nossos próprios valores. Assim, ela se libera da dependência do sistema financeiro e economiza, simultaneamente, o pagamento de juros. É isto que faz com que a Economia Solidária possa trabalhar de modo tão mais econômico que, somente com base nisso, ela já pode concorrer com o capitalismo!

        Agora, uma coisa importante para tomar em conta é: se nos usamos nossos próprios valores como lastro para nossas próprias moedas, o que é exatamente esse lastro? No clubes de trocas o lastro é garantido pelas relaciones sociais. Na rede WIR o lastro já é mais jurídico. No capitulo 8.1 será apresentado o sistema FOMENTO, onde o lastro da moeda social é moeda nacional. Somente se logramos criar lastros comparáveis, as diferentes moedas podem circular nos diferentes sistemas. É isso um sonho do Movimento Monetário Mosaico: ter diferentes moedas sociais que circulam não só no seu próprio sistema, mas que podem ser aceitadas, sem risco nenhum, noutros modelos também.

2.6 - O eixo de sustentação do sistema monetário: o endividamento

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