Movimento Monetário Mosaico

2.6 - O eixo de sustentação do sistema monetário:
o endividamento
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        Como o sistema econômico atual está baseado na criação de dinheiro com base em crédito o modo mais importante pelo qual a quantidade de dinheiro cresce é a concessão de novos créditos. Mais isto também implica que quanto maior a quantidade de dinheiro, tanto maior a disponibilidade de crédito e, portanto, maior o volume total de dívidas.

        Olhando por este ângulo vivemos num sistema de endividamento e de tentar empurrar as dividas longe de nós, para os agentes mais fracos. Um sistema que gira sobre o crédito, gira sobre endividamento. Quando observamos o enorme crescimento na quantidade de dinheiro dos últimos anos, só podemos concluir que tem ocorrido um enorme endividamento. O economista inglês Michael Rowbotham pesquisou este assunto.

Gráfico (crescimento de M4 e do endividamento na Inglaterra)

        No seu gráfico observamos que o M4 (termo técnico dos economistas para a quantidade total de dinheiro) na Inglaterra cresceu explosivamente no período pós-guerra.

        Deste M4 somente 3% circulam na forma de moedas e notas. Este é o único dinheiro que entra em circulação na forma de gastos e não de empréstimo. O resto da quantidade de dinheiro, todos os créditos em contas bancárias, cartões de crédito, cheques, hipotecas e contas correntes estão baseados em crédito. Isto está bastante claro no gráfico: o endividamento total na Inglaterra aumentou exatamente na mesma proporção que o total da quantidade de dinheiro.

        Nos primeiros capítulos vimos que a razão pela qual as dívidas e a quantidade de dinheiro crescem tão exponencialmente é o fato de que são cobrados juros sobre todos estes créditos que entram em circulação.

        Um latino-americano, Asiático ou Africano sabe que, até hoje, seu país paga prestações por dívidas contraídas anos atrás. Mas na Europa e nos Estados Unidos, isto também acontece! O pagamento de juros é, para o governo dos Países Baixos, o segundo maior item do orçamento, pagamento que consome muito mais dinheiro do que ensino ou saúde pública! Portanto, os países pobres não devem aos países ricos mas todos países devem ao sistema financeiro. E isto não se aplica somente aos governos mas também aos indivíduos. Nos EUA o nível de endividamento pessoal (hipotecas, cartões de crédito, etc.) cresceu tanto na última década que Alan Greenspan, diretor do Banco Central, manifestou sua preocupação com o fato repetidas vezes: na primeira crise que surgir o castelo de cartas poderá desmoronar e as pessoas não terão condições de pagar os juros e as prestações assumidas. Isto poderá ter reflexos na economia internacional. Também a classe média na América Latina está entrando de olhos abertos nesta armadilha: atraída pêlos brilhantes Shopping Centres e padrões de consumo maravilhosos, as pessoas estão se afundando, cada vez mais, em dívidas. Enquanto há crescimento está tudo bem. Mas mesmo um pequeno choque pode, nesta situação, ter enormes conseqüências.

        Analisando isto tudo verificamos que o sistema monetário nos coloca diante de uma opção injusta: ser pobre ou ter dívidas, (ou ser tão esperto que conseguimos repassar o problema para outros)...
Se queremos capitalizar nossas capacidades, a única forma que temos é de nos endividar com os bancos, pagando os juros. Para um indivíduo, isto pode funcionar: ele ser experto e gerar seu investimento, mais os juros. Mas para a comunidade na sua totalidade esto é uma perda de dinheiro (veja
capítulo 2.3)

Capitalizar nossas capacidades para nos desenvolver.

        O renomeado economista peruano Hernando de Soto foi convidado, nos últimos anos, ao expor sua nova visão de como a pobreza pode ser resolvida. De Soto tem uma teoria bastante radical de como realizar desenvolvimento.

"É só legalizar todos os bens informais nos países pobres. Como quase noventa porcento das casas não existe oficialmente, também não é possível obter uma hipoteca sobre a mesma. Legalizando-as cria-se no mundo pobre um potencial econômico de 9.300 bilhões de dólares. Isto é mais do que vinte vezes o total do auxílio ao desenvolvimento desde a Segunda Guerra! Para os bancos surge então um gigantesco mercado de financiamento."

        Assim falou ele durante sua visita aos Países Baixos.

        É claro que De Soto está ciente de que uma parcela significativa dos problemas dos países pobres é provocado por falta de dinheiro.

        Falta de dinheiro para investimentos, falta de dinheiro para fins comerciais e falta de dinheiro enquanto capacidade de consumo. Pode ser que ele tenha razão. Que espaço seria gerado se o mondo pobre pode obter dinheiro capitalizando (hipotecando) seus bens! Mas simultaneamente os juros exigirão seu tributo e, aí, de forma acelerada. A economia não poderia se dar ao luxo de proporcionar bem-estar, mas deveria crescer para honrar os encargos dos juros, conceder novos empréstimos, ter confiança para assumir novas dívidas. Muitas das pessoas que contrataram uma hipoteca serão obrigadas a contratar novos empréstimos para pagar os juros. A capitalização de nossos bens no sistema monetário atual significa que nos sujeitamos ao pagamento de tributos ao capital financeiro. Se dermos ouvidos a De Soto e realmente injetarmos 9.300 bilhões de dólares na economia pobre, os bancos receberão só no primeiro ano, a um juro de 10% ao ano, 930 bilhões. Este dinheiro terá que ser pago! Assim, estaremos a caminho de um novo desastre!

        Mesmo assim, o que De Soto diz é muito importante: a rejeição de bens de capital como garantia do capital faz com que a economia informal esteja em grande desvantagem na obtenção de dinheiro e, portanto, é reprimida em sua dinâmica.

        Além disso, é possível fazer uso do potencial apontado por De Soto e, ao mesmo tempo, evitar a armadilha dos juros. Para isto é necessário unir-se às evoluções e transformações mais modernas do mundo do dinheiro. Uma empresa que compra outra empresa com suas próprias ações também evita as custos dos juros! Redes avançadas de compensação mútua podem, da mesma forma que uma empresa paga com ações, fazer com que seus próprios bens de capital formem a base das possibilidades de trocas mútuas. E assim não há necessidade de juros. Neste tipo de método, onde nós mesmos criamos nosso espaço de crédito tem-se, ao final, uma base mais estável do que o sistema monetário normal.

        Agora, não é possível capitalizar nossas capacidades sem nos endividar e ficar escravos dos juros? No Movimento Monetário Mosaico, é deste tipo de sistemas avançados de compensação mútua que esperamos muito se queremos, no futuro, nos livrar dos tributos ao centro financeiro capitalista. No capitulo 6 você poderá ver como em Circuitos de Capital Liquido a Economia Solidaria poderá capitalizar suas próprias capacidades dentro duma rede independente do sistema financeiro. Isto realizara a mesma capacidade de desenvolvimento que foi descrita por Hernando De Soto mas sem o drenagem do dinheiro pêlos pagos de juros!

3. DINHEIRO e POBREZA

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