3.1 - RECONCEITUANDO as RAZÕES da POBREZA
Populações e países bem organizados economicamente tem a possibilidade de se especializar e otimizar sua produtividade e produção. O inverso também e verdadeiro. Pobreza pode ser uma conseqüência da falta de especialização gerada pela falta de organização econômica. Especialização e organização dependem muito da presença de suficiente dinheiro disponível na comunidade.
É obvio que existe uma falha sistemática no sistema monetário, porque uma quantidade significativa de dinheiro está faltando nos lugares onde há mais necessidade de se organizar. Alem disso, o problema da divida externa dos países pobres vem intensificar este drama, pois sabe-se que o hemisfério sul envia mais dinheiro por ano para os países do norte por pagamento de amortizações e juros de suas dividas, do que recebe deles como apoio. Estes pagamentos implicam uma desfasagem monetária e a diminuição das possibilidades de intercâmbio, especialização e organização local.
Mas porque o dinheiro flui para outros lugares e foge dos lugares onde é mais necessitado?
As explicações são múltiplas e complexas. Aqui nos interessam as que são diretamente ligadas ao sistema monetário. A seguir descrevemos quatro aspectos que de certo modo caracterizam a pobreza e organizam o cenário que vivemos:
Pobreza como resultado da falta de dinheiro
Um bom exemplo de como um sistema monetário que funciona mal pode criar pobreza é a Europa dos anos 30. A Grande Crise de 1929 que começou com a quebra da bolsa de Nova York, prejudicou todos os setores econômicos. A pobreza nasceu inesperadamente da noite para o dia. Existia muita capacidade mas ela estava ociosa. Fábricas paradas, pessoas desempregadas. As pessoas e seus governos não tinham conhecimento econômico para colocar a capacidade disponível em bom uso. E quem não tinha dinheiro para receber, logo não tinha para gastar.
John Maynard Keynes, um famoso pensador econômico da época, apontava que a perda de poder aquisitivo significava a perda de possibilidades de trocar bens na comunidade. Quando a comunidade não troca, suas capacidades econômicas não são otimizadas. A proposta do Keynes para os governos empobrecidos: gastar! Gastar mais dinheiro, para que a sociedade tenha ingresso, e assim criar uma circulação de bens e serviços. O dinheiro gastado pelo governo seria resgatado adiante, quando ele voltara como pagamento de impostos.
A crise na Europa felizmente durou menos de 10 anos, fazendo com que as pessoas pudessem recuperar e utilizar capacidades produtivas antigas. Ainda tinham no seu consciente coletivo a lembrança de uma economia dinâmica.
Mas imaginemos o que teria acontecido se esta depressão tivesse durado varias gerações? Seguramente teriam acontecido dois fatos: primeiro, como efeito direto, falta de dinheiro em circulação, e por conseqüência, desorganização econômica. Segundo e por conseqüência, falta de conhecimento industrial e individual no sentido de saber usar maquinas para produzir ou das pessoas saberem se organizar para trabalhar juntos. Numa crise prolongada, as perdas não são só econômicas, mas também a destruição, ou nao-desenvolvimento, das estruturas sociais e de certos aspectos da consciência humana. Esta é a atual situação da maioria das pessoas que vivem nos países subdesenvolvidos no hemisfério Sul.
A falta de dinheiro para intermediar trocas não só cria uma falta de consumo mas muito mais uma falta de interação, e portanto uma falta de desenvolvimento.
Toda produção regional perde todo dia dinheiro com o sistema financeiro. Não só em áreas pobres, mas em todo mundo. Isto é o resultado da criação de dinheiro a base de juros. (veja capítulo 1.5) Todo dinheiro que é gerado no mundo, já nasce tendo que pagar juros como tributo por aceito para estar em circulação. Todo dinheiro novo emitido em países pobres paga tributos para seus centros financeiros nacionais os quais daí pagam estes tributos para o mundo dos dólares e yens, que são o respaldo desta emissão.
Países do terceiro mundo tem tentado compensar estas perdas pedindo empréstimos para países ricos. Este é um dos fatos históricos que tem feito as dividas deste países crescerem com velocidade enorme fazendo os países ficarem submetidos às mais diversas pressões de políticas de ajuste estrutural.
Em 1980 a dívida total dos países em desenvolvimento consistia em 567 milhões de dólares. Nos 12 anos seguintes pagou-se a estes países 1662 bilhões de dólares, e no entanto em 1992 estes mesmos países não tinham um saldo a seu favor de 1095 bilhões, pelo contrário seguiam com uma divida de 1410 bilhões de dólares.
Os países pobres do Sul pagam mais dinheiro aos países do Norte do que recebem, receberam ou receberão. Durante anos e anos milhões de dólares fluem dos países pobres para os países ricos. Bancos evitam áreas pobres o que resulta numa menor criação de novo dinheiro (créditos) fazendo mais difícil compensar a saída do fluxo de dinheiro. Esta permanente perda de dinheiro faz que a crise economica-financeira em áreas pobres seja tão persistente.
A taxa de juros diminui a capacidade de compra de um grupo, uma comunidade ou um país, concorrendo para que sua capacidade de investir seja menor fazendo com que o dinheiro necessário para crescer e atender suas necessidade desapareça.
Uma outra maneira de perder dinheiro de uma comunidade para o mundo externo é que as pessoas que tem mais disponibilidade de dinheiro numa comunidade carente, poupam tais recursos, investindo em centros financeiros nacionais ou internacionais. Argentina, por exemplo, tem quase tantos recursos de cidadãos investidos ou poupados no exterior, que o monte total da divida externa nacional. Se todos estes recursos fossem investidos na própria economia, o resultado total seria um enorme crescimento da economia, e portanto um bom retorno aos investimentos. Mas para o poupador individual, investir suas poupanças na fraca economia nacional, é um risco muito grande.
Em uma sociedade que está acostumada ao dinheiro, como é a nossa, já não é possível desenvolver antigas formas de organizações de produção que não precisassem do dinheiro.
É por isso que para promover um desenvolvimento equilibrado é necessário ter um sistema monetário que promova e fomente a cooperação localmente, cumprindo sua função de troca sem tirar o dinamismo para fora da comunidade, região ou país.
O intuito deste livro, e do Movimento Monetário Mosaico, é enfocar na possibilidade de construir trocas internas para limitar a perda da região com os meios de trocas globais. Quanto mais o poder aquisitivo local e a produção local sejam interligados, quanto mais uma região ou comunidade pode se desenvolver baseando-se nas suas próprias capacidades.
Pobreza causada pela incapacidade para investir.
Muitas pessoas pensam que a disponibilidade de dinheiro para investir é um resultado das poupanças de outros. De fato, as praticas dos bancos mostram que este não é exatamente o caso. Os bancos emprestam mais do que recebem das pessoas poupadoras. Isto ocorre porque os bancos tem a capacidade de criar dinheiro. (veja capítulo 2.1) A capacidade de emitir dinheiro, em forma de créditos cria o espaço para a sociedade de fazer investimentos. Mas sempre a base da emissão de dinheiro são os fundos do banco. Se o dinheiro local sai da circulação para outras regiões, e também as poupanças são guardadas no exterior, os bancos locais terão poucos fundos com quais criar créditos. Eis outro fato dramático de saída de dinheiro da comunidade: a saída de dinheiro atrapalha a possibilidade de criação de dinheiro para investir. Neste caso a comunidade não tem organização econômica nem capacidade de investimento. Assim a pobreza de hoje impede diretamente investir em desenvolvimento, e na criação de valores amanha. É o caso de uma crise permanente.
Pobreza pela perda do poder aquisitivo
Muitas compras que ao indivíduo aparecem como vantajosas, por seu preço baixo, em realidade para a comunidade são um desvantagem: se o dinheiro gastado no produto sai da circulação local, e não somente o lucro direto da venda sai fora da comunidade, mas também a capacidade disse dinheiro de circular, facilitar transações, e gerar atividade econômica localmente.
Dito de outro modo, as poucas transações que são feitas nos bairros pobres se fazem com produtos que são produzidos fora, os aluguéis sejam de casas ou terras vão beneficiar proprietários que não vivem na região e que ao receber estes pagamentos usam e gastam este capital não na cidade da sua região.
Nos preços dum produto, o consumidor não pode encontra a informação do chance que ele tem que o poder aquisitivo que ele gasta, voltasse a ele.
A conseqüência mais imediata é que a maioria do dinheiro gerado localmente (tanto faz ser um bairro, uma comunidade, uma região, um país) desaparece rapidamente, por isso sempre há falta de dinheiro para organizar o comércio ou a cooperação entre os agentes econômicos destes locais.
Se o dinheiro gerado em um dado lugar é gasto em outro, a tendência é que desapareçam os produtores locais, que a cadeia produtiva se desarticule e não haja capacidade de poupar ou interesse em investir em um lugar de tão pouca organização produtiva.
Desta forma o esgoto do poder aquisitivo tem conseqüências muito mais estruturais que só a perda imediata do lucro do negocio.
O que fazer?
Estas causas monetárias da pobreza, podem ser entendidas como erros sistêmicos do dinheiro capitalista. Nas nossa propostas temos que tomar estas em conta para criar novas dinâmicas com qualidades diferentes.
Um dos nossos desafios e criar moedas que providenciam a possibilidade para os pobres se desenvolver, já que o sistema atual faz que os pobres não só são excluídos das riquezas, mas também das possibilidades para gerar rendas para si mesmo.
Um outro desafio é criar moedas que não saiam da circulação local tão facilmente, mas que circulem localmente gerando possibilidades de especialização e intercâmbio.
Moedas Sociais, baseadas nas próprias capacidades das comunidades e das empresas locais, são uma resposta a exatamente estos problemas. Elas incluem todas capacidades, também as dos pobres, e criam para todos a capacidade de se desenvolver. Ao mesmo tempo elas são baseadas na comunidade, e circulam no primeiro instante localmente.
A capacidade de nossas comunidades e de nossas empresas de capitalizar nossos próprios valores, e de criar moedas baseadas em nossas próprias capacidades produtivas, não só nos geram benefícios imediatos, mas, muito mais importante, nos geram a oportunidade de sair das causas estruturais da pobreza que foram discutidas neste capitulo!
3.2 - Dimensão internacional da pobreza
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