3.3 - Crise conjuntural e Desertos monetários
Se olhamos bem, as crises conjunturais, que se encontram em toda historia do capitalismo, tem muito a ver com a pobreza estrutural das periferias econômicas. Neste capitulo, comparamos estas crises com o que chamamos de desertos monetários.
Aspetos absurdos das crises
Mesmo tendo capacidades para produzir determinado produto, muitas pessoas são expostas à condições de ínfima miséria. Isto e paradoxal, quanto estas mesmas pessoas estão desempregadas, sem fazer o possível para melhorar suas condições. Por que as pessoas nos lugares mais carentes não se unem para trabalharem juntos trocando serviços e produtos, mesmo que sejam poucos? Será que a falta dum meio abstrato para intermediar intercâmbios, especialização e desenvolvimento nutre a falta de perspectiva?
Qualquer comunidade complexa precisa de um meio de troca, como um meio de comunicação que tenda a unir as transações desejadas pelas pessoas. Se não existir este meio, não haverá trabalho e as pessoas tenderão a empobrecer cada vez mais, apesar de cada um ter capacidade de produzir e, existir demanda para suas capacidades.
Um exemplo, em que um grupo de pessoas desempregadas que podiam trabalhar e queriam trabalhar é a crise européia dos anos 1930.
Nesta crise encontravam-se fábricas fechadas com maquinaria ociosa e matérias primas se deteriorando, casas desabitadas porque os habitantes não tinham como pagar os alugueis.
Porque todo fica parado, quando todos os meios de produção estão a disposição? Porque não há o instrumento de viabilize as trocas: o dinheiro.
Na crise o dinheiro se desvaloriza, como conseqüência as pessoas não trabalham juntas e não usam os meios de produção disponíveis: a comunidade não tem como se organizar e cooperar. As possibilidades não são aproveitadas pela falta dinheiro.
Durante a crise dos anos 30 se (re)descobriu o impacto da ausência do dinheiro, nos processos econômicos e suas implicações com a pobreza e miséria.
Uma recessão no circuito monetário como conseqüência gera crise; mas seus reflexos vão alem do âmbito econômico, podem ser verificados verdadeiros absurdos quanto aos danos sociais gerados por tal recessão. Alan Watts na crise dos anos 30 já apontava para estes elementos quando dizia: "Os mesmo materiais, as mesma fábricas, as mesmas fazendas, a mesma gente e as mesmas capacidades produtiva dos anos anteriores estavam disponíveis. Havia muito alimento, bens e matérias-primas. E, havia trabalho. Mas a economia estava paralisada, porque não havia dinheiro. E isto é tão absurdo como parar de construir casas, por falta de centímetros"
Desertos monetários.
Os mesmos elementos absurdos, de não utilizar as possibilidades reais de desenvolvimento, por uma falta no sistema monetário, que são típicas das crises conjunturais, podem ser percebidos em regiões pobres, onde o capital e o dinheiro desaparecem, tanto da produção quanto do consumo e a circulação local. Quando o dinheiro sai da circulação local, pelas diferentes razões nomeadas no
capitulo 2.3, a comunidade local fica sem as possibilidades de trocar e se desenvolver.Se a comunidade não ter internamente as trocas necessárias para gerar um fluxo de bens e serviços, ao mesmo tempo também não é interessante começar uma empresa aí. Isto faz que o dinheiro que um membro da comunidade tem para investir, ele vai levar fora da circulação local. Ao mesmo tempo, o fato de não ter localmente as possibilidades de gerar renda, faz que não será fácil para um empreendedor ou consumidor local, obter um crédito dum banco. O que acontece é que as diferentes razões de drenagem de dinheiro se fortificam mutuamente, criando o que nos chamamos de um deserto monetário. Aqui o dinheiro foi embora, e as possibilidades de obter novo dinheiro são muito mais fracas que nas áreas onde ele circula em abundância. Bem como um deserto natural, não só tem menos chuva, mas a falta de arvores também não atrai nuveis, fortificando a aridez.
Estos desertos monetários existem em todas as periferias do sistema capitalista. Não só nos países pobres, onde grandes partes da população estão desempregadas, sem poder se organizar e trabalhar para melhorar as condições de suas comunidades, mas também nos bairros marginais dos países ricos, onde não é possível para uma pessoa obter um crédito do banco, não por não ter ingresso, mas por seu CEP que demostra que mora num bairro de baixa renda, o que lhe faz um risco para o banco.
Se existe a disponibilidade de matéria-prima e capacidade de trabalho, então a pobreza apenas é a parte visível de uma lógica econômica em curto-circuito. A questão não se dá somente pela simples falta de dinheiro, mas também, pela forma como este dinheiro existente está concentrado dentro da sociedade e a forma como ele é utilizado sem levar em conta as potencialidades internas.
Mas como sair dum deserto monetário? Como trazer à comunidade o meio necessário para criar uma circulação local, para desencadear a economia local, baseada nas capacidades existentes? Para trabalhar juntos para melhorar nossas condições? Para criar uma base na qual podemos investir e desde a qual podemos nos relacionar com outras comunidades? Para sair desta crise perpetua?
Para esto é preciso repensar o sistema monetário e a função que ele exerce. Usar uma outra lógica, uma lógica que não esgote a formas de organização econômica locais pela apropriação dos excedentes locais e, também, promova a distribuição do poder aquisitivo a partir de um maior intercâmbio no interior das comunidades, regiões e países.
Para que isto aconteça alguns requisitos são necessários. É necessário criar moedas que não sejam atrelada às moedas globais como o dólar ou o yen (diretamente como em Argentina ou indiretamente como em Brasil), mas que sejam baseadas nas capacidades existentes locais; um sistema monetário que não se organiza no crédito especulativo, mas onde a lógica financeira e diretamente ligada às lógicas produtivas; que se eliminem os juros embutidos no circuito produtivo pela criação de moedas com juros negativos; que haja possibilidade de negociar (regiões com regiões, comunidade com comunidades) sem a interferência do sistema monetário internacional, uma verdadeira liberdade de comércio justo; que se receba incentivo a produzir mesmo que esta produção não seja direcionada somente para o mercado global, mas justamente às necessidades locais; que haja a possibilidade de se criar uma moeda a fim de que este instrumento continue circulando localmente e promova a reorganização das comunidades.
Caso contrário, continuaremos a viver e a tentar sobreviver nos desertos monetários atuais, escolhendo alternativas de prosperidade que se fundam no endividamento crescente, no desequilíbrio financeiro, comercial e na fuga permanente dos capitais necessários para promover o desenvolvimento. Neste ponto reside a importância estratégica do poder aquisitivo e de compreender a crise, já que ela nos aponta para a importância de certos aspectos que nem sempre nos damos conta.
O Movimento Monetário Mosaico tem como objetivo criar justamente esses mecanismos.
4 - O revés da moeda: diferentes praticas realizadas
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