4.4 - Clubes de trocas
Desde as épocas remotas o homem se dedicou ao comércio para sobreviver; a primeira forma de comércio conhecida foram as trocas. Também os índios maricanos gerenciavam seu comércio a partir das trocas. Tanto foi assim que com a chegada dos conquistadores estes trocaram espelhos e outras quinquilharias por ouro, prata e outros metais preciosos.
Os indígenas tinham um outro tipo de sociedade, nela a solidariedade e o cooperativismo era a moeda corrente. Partimos do pressuposto que os indivíduos são inteligentes e que é esta faculdade que permite aos indivíduos adaptar-se as circunstâncias tal como elas se apresentam.
Desde 1995 na Argentina estão funcionando os Clubes de Trocas. Estes começaram como um grupo de amigos, uns oito reunidos em uma garagem para trocar produtos que necessitavam. Trocavam alface por feijão, vergamotas por cebolas.
Um grupo de indivíduos se reúne para realizar intercâmbios socio-econômicos multi-recíproques. Para facilitar estos intercâmbios um meio e introduzido. O nome diste meio pode ser qualquer, em Argentina o nome mais usado e do crédito. Em Bolívia fala-se dos talentos, em Florianópolis dos ecosoles.
Este meio é imprimido por o próprio grupo, e somente tem valor ao ser aceitado por os integrantes do grupo. O conceder o meio de intercâmbio aos integrantes do grupo é visualizado como um 'auto-crédito' do clube ao mesmo, para realizar seus intercâmbios internamente.
Cada membro do grupo recebe uma quantidade de créditos, em Argentina normalmente 50 créditos (= 50 pesos argentinos = 50 dólares) por integrante. O integrante se compromete a devolver este crédito ao sair do clube.
Integrantes de outros clubes podem decidir aceitar os vales do clube, ou não. Isto depende da confiança na produção e organização do clube.
Pessoas não associadas a um clube podem trocar em créditos, lhes aceitando como pagamento para bens ou serviços. Mas eles não podem adquirir o 'auto-crédito' sem se associar.
Hoje os grupos de trocas reúnem mais de 500.000 pessoas em todo o país que indicam a existência de aproximadamente uns 500 grupos de troca.
Se calcula que estão movimentando por ano, aproximadamente uns 600 a 800 milhões de pesos nas suas trocas e na sua participação no comércio.
Milhões destes créditos circulam, emitidos por clubes individuais, ou associações de clubes. Um clube e um grupo de pessoas que se unem de acordo a seus necessidades e trocam entre eles bens e serviços. O estilo de formar o grupe não tem padrão rígido. Cada grupe aplica os mecanismos que eles acham necessários.
Estes clubes de troca formam um dos movimentos sociais mais energéticas deste momento: implicam muitas pessoas, sem ter uma base geral claramente definida, sem ter fundos ou subsídios, e sem ter uma organização centralizada. Mais que um movimento e uma dinâmica, viva e flexível.
Nos clubes se trocam bens, serviços e se pode encontrar de tudo, desde comestíveis até ferramentas, plantas, roupas, quadros. Uma senhora comentava que pode festejar o aniversario da sua filha de quinzes anos graças aos "créditos" e aos grupos de trocas, "o único que tive que pagar com dinheiro foi o local da festa".
Ela vende doces em um dos grupos e assim conseguiu juntar suficientes créditos para contratar , por esse mesmo método , todo o necessário para o aniversário; comida, bebida, vestido da filha, todo. Estes grupos como dissemos, estão crescendo a passos de gigante; contam com o reconhecimento do Estado Nacional, através de um convênio firmado com a Secretaria da Pequena e Média Empresa do Ministério de Economia.
Em janeiro de 2001, o governador da província de Buenos Aires, Carlos Ruckauf, assinou um decreto (nº 3862)que autoriza aos departamentos provinciais a aceitar a troca como instrumento de pago das dívidas dos cidadãos.
Já em algumas outras províncias, principalmente do sul, há algum tempo que se utiliza esta metodologia.
Por exemplo, a municipalidade de Neuquén, liquidou a divida de um padeiro em troca de pão; a municipalidade deste modo abastece as cantinas escolares e o trabalhador (padeiro) regulariza sua situação fiscal e não perde seu trabalho; outro exemplo semelhante é o de um mecânico, na mesma situação, que frente a necessidade de fechar sua oficina, optou por oferecer pela troca seus serviços - manutenção dos veículos da prefeitura - modo a saldar sua divida com a municipalidade. Um caso mais recente é o da Municipalidade de El Bosón, onde também se aceita as trocas de bens e serviços para aqueles que de maneira comprovada nõa contem com ingressos necessários para pagar os impostos municipais.
Não estamos falando de uma sociedade ideal, mas sim de uma sociedade diferente porque solidária, que usa o crédito, a moeda social nos grupos e ao fazê-lo permite que todos sejam iguais, todos são "prosumidores" palavra que resume a idéia que todos somos ao mesmo tempo produtores e consumidores. Cada pessoa que participa de um grupo deve produzir um bem ou prestar um serviço para assim obter os créditos e deste modo se converter em consumidor.
É preciso destacar que esta moeda social não permite a acumulação, já que tem um tempo de duração, chamado pelos prosumidores de "oxidação" . Essa oxidação se baseia nas idéias dos juros invertidos, e faz com que o dinheiro quanto acumulado diminui.
Talvez
a principio a idéia das trocas seja percebida de forma
preconceituosa, mas a necessidade das pessoas tem cara de herege;
se vendendo doces alguém pode conseguir um pintor para sua casa
assim como as tintas, coisa que de outra forma não poderia
conseguir por falta do dinheiro. A troca aparece como uma boa
opção e quando as pessoas entram neste circuito se dá conta
que nas mínimas coisas existe a possibilidade de resgatar sua
dignidade, atender melhor as necessidades da sua família .
As pessoas se dão conta que podem conseguir muitas mais coisas
do que simplesmente pintar a sua casa. Os exemplos na Argentina
são 500.000 histórias de cada um dos prosumidores que integram
a Rede Global de Trocas na Argentina.
As trocas praticadas em uma rede solidaria de pequenos grupos de trocas permitem que famílias tenham contatos próximos, cara a cara, desaloja estratégias ou manobras especulativas e torna improvável a aparição do mercado negro, do desabastecimento e da desvalorização dos produtos ou serviços.
O grande desafio que hoje temos é aprender novamente a nos ver e a considerar que todos temos um valor intrínseco - algo incomensurável - que deve ser apreciado em todos e em todas, independente do nível: indivíduo, família, grupo, comunidade, nação - que pode aportar ao outro condições para sua sobrevivência, bem estar e progresso social a partir dos princípios de reciprocidade e solidariedade.
4.5 - Dinheiro respaldado por prefeituras
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