Movimento Monetário Mosaico

5.1.a PRIMEIRO NÍVEL: ORIENTAÇÃO3 POLICÊNTRICA

        Construir novos espaços econômicos dentro da economia capitalista eliminando a competição por dinheiro, mas aceitando a competição proposta pelo mercado através de outros espaços econômicos solidários.

        Para conseguirmos um desenvolvimento próprio precisamos criar novas formas de colaboração e/ou cooperação, tornar-nos independentes do sistema monetário capitalista e conquistar territórios desse sistema monetário. Isto nos tirará do dilema de desemprego ou endividamento.

        Para tanto é necessário criar instrumentos que dêem às comunidades, grupos e/ou empresas a possibilidade de construir um futuro. Aqui, é preciso colocar uma questão crítica: que está no bojo de um dos principais instrumentos do sistema monetário tradicional - o crédito que está atrelado a uma taxa de juros (remuneração do capital).

        Estes dois instrumentos - crédito e juros - concorrem para que nas comunidades periféricas e mais empobrecidas a demanda aquisitiva local que já é limitada, seja esterilizada, porque as capacidades empresariais vão se dirigir, direta ou indiretamente, ao mercado não-local que se beneficia da energia empreendedora de uma estrutura sócio-econômica local. (veja capítulo 3.3 desertos monetário)

        As possibilidades para novos empreendimentos locais está diretamente relacionada a quantidade de dinheiro presente. Caso este não exista o poder aquisitivo local tende a ser deslocado para outros lugares que não sejam o povoado, o bairro.

        Quando as compras são feitas fora da comunidade este dinheiro desaparece da circulação local e não pode facilitar trocas locais, não fortalece as trocas produtivas do mercado local .

        Se a economia produtiva resolver respaldar suas próprias moedas com sua própria produção (veja capítulo 4.6) não se precisa mais competir pelo dinheiro. Sempre existe, numa economia que não seja centralmente planejada, a competição pêlos mercado, mas esta competição pode então ser fundada nas estruturas sociais e culturais locais.

        A crescente falta de capital para promover a produção fragiliza e desarranja, desorganiza os espaços produtivos locais bloqueando perspectivas de futuro na medida em que desmancha vínculos relacionais de apoio e pertencimento. Se o dinheiro para investir não for escasso, a comunidade pode ter diferentes métodos de decidir onde investir sem os empreendedores ter que competir por o capital escasso.

        E isso o que o Movimento Monetário Mosaico procura: encontrar formas para os empreendedores se comunicar, como nas redes econômicas. Desta forma realizamos uma sínteses entre o mercado livre e a economia centralmente planejada. (veja capítulo 6)

Táticas:

A lógica do jiu-jitsu

        Chegou a hora da economia solidária não só reagir mas também definir seus próprios objetivos e implementar uma economia em rede na qual as vantagens da colaboração sejam mais atraentes para os participantes do que aquelas de estar só num mundo que concorre pelo escasso dinheiro virtual.

        A diferença desta tática esta no fato da defesa não estar mais baseada exclusivamente na reação.

        Ao invés de considerar a economia e o sistema monetário como competência exclusiva do Estado ou do Bancos é preciso ter presente que fragmentação, particularismo, crise da política e do Estado, por mais paradoxal que possa parecer, pode ser sinônimo de re-organização de re-significação do social.

        A metáfora que apresentamos a seguir da uma idéia do que pode ser este reenergizar a solidariedade vicinal e comunitária. Esta nova lógica do fazer social deve ser entendida como a energia de um rio que desce a montanha.

        Podemos nos opor ao rio e a energia que ele traz consigo, podemos até, construir diques em torno do rio, represas, etc., ou podemos usar esta energia em nosso próprio benefício. Canalizando a água, direcionando-a para onde ela nos será útil e a fazemos descer a montanha pela rota que nós escolhemos. Assim a água pode ajudar-nos a formar vales e a mover montanhas.

        Assim como estão em curso processos sociais que tendem a alterar as relações entre Estado, Mercado e Sociedade Civil; assim também outras lógicas sociais são possíveis para pensar sistemas de produção e de consumo. Se por um lado volatizam políticas sociais, econômicas, por outro a possibilidade de "formas alternativas" não são mais experiências pontuais, mas realidades que podem ser interconectadas.

        Ao mesmo tempo temos que procurar o que são as forças dinamizadoras do capitalismo, e procuras se elas podem ser aplicadas em nossos projetos solidários.

Subsídio

        Apoio de meios solidários pode ser um instrumento para alavancar de processos produtivos bloqueados existentes na comunidade.

        Ao contrário das políticas tradicionais, o subsídio não pode ser entendido como instrumento distributivo compensatório de crédito, mas como fator que capaz de ordenar processos econômicos, organizar vínculos sócio- econômicos e construir sínteses a partir de interesses fracionados.

        Se o sistema monetário provoca um déficit na economia produtiva tornando-a obrigada a pagar tributos à economia financeira. O subsídio inverte a lógica do sistema monetário tradicional criando nossos próprios créditos que a própria comunidade garante , com o seu trabalho que hoje se é preenchido com dinheiro ‘novo’ que entra em circulação através das hipotecas, crédito ao consumo e, principalmente, através de novas dívidas.

        Não é intenção que este subsídio ou apoio seja uma constante: a intenção é que a nova realidade produtiva consiga, no futuro, "caminhar com suas próprias pernas’".

        Na verdade o objetivo maior é passar da atividade subsidiada para independente. Assim o fazendo daremos mais um passo na organização de sistemas monetários diferenciados que que permitam conquistar territórios do dinheiro capitalista.

Intercâmbio Produtivo

        Na base de um outro fazer social na qual o desenvolvimento não esteja fundado no risco social da ausência do dinheiro e do trabalho para todos, há que reconhecer são outros os elementos para assegurar a integração de processos econômicos mais recíprocos e solidários.

        O intercâmbio produtivo é necessário porque permite que agentes econômicos realizem tarefas complexas ou ordenamentos sócio-econômicos complexos.

        É através deste comportamento intencional que os diferentes participantes especialistas naquilo que fazem podem garantir de forma mais eficiente a sua sustentabilidade ampliando suas possibilidades de não exclusão social ou de e isolamento. Esta especialização, por um lado, só é possível se há um instrumento que facilite os intercâmbios e torne possível o desenvolvimento.

        No intercâmbio produtivo as empresas podem ser dar conta que o montante dos encargos decorrentes de juros com o qual ela para conseguir capital a ser investido na produção pode ser eliminado senão reduzido a partir da criação de um sistema de compensação independente do dinheiro bancário. Um sistema monetário paralelo ou alternativo consegue alcançar uma economia de custos e pode dinamizar muito suas atividades econômicas. Portanto, vamos aprender com os métodos que já estão sendo desenvolvidos por empresas capitalistas e utilizá-los a maior parte da compensação de seu comércio fora do sistema monetário.

Consumidor local

        Se por um lado a fonte mais provável do "dinheiro" futuro são os grandes conglomerados, de outro existe um poder que está nas mãos dos consumidores.

        Podemos aprender das mudanças atuais e descobrir quais oportunidades elas nos proporcionam na qualidade de consumidores e de empresa diferenciadas da lógica predadora do mercado. A possibilidade de construir um mundo no qual a pobreza poderá ser eliminada em grande parte, deriva da compreensão que quanto maior for o número de pessoas e os comportamentos de cooperação e/ou colaboração, maior será a possibilidade de fazer com que nossos sonhos mais ousados sejam compartilhados.

        Se nós, enquanto consumidores e empreendedores independentes realizarmos a maior quantidade possível de transações dentro de um sistema de compensação interno, podemos ter as mesmas vantagens que os grandes conglomerados da economia capitalista globalizada hoje tem.

        Sabe-se que " é no consumo que a produção se completa, e que este tem impacto sobre todo o ecossistema e sobre a sociedade em geral (...) e que a exclusão social se dá em função das pessoas não estarem ligadas a um circuito de trocas produtivas" ( Mance, 1999)

        Por entender que o sujeito social não é produto de forças externas a ele, mas que é capaz de produzir e reproduzir práticas sociais passíveis de transformação e mediação cremos que como a cooperação entre as empresas, o consumo solidário através de moeda social são os instrumentos através dos quais o consumidor pode usar um poder que até então não se permitiu e que contém em si uma enorme possibilidade de transformação.

        Concretamente estamos propondo uma relação de colaboração em diferentes níveis que vai do internacional ao local, unindo redes de grupos de consumidores a redes de comércio locais no qual o consumidor tem papel fundamental nas decisões produtivas.

5.1.b - SEGUNDO NÍVEL: ORIENTAÇÃO REGIOCÊNTRICA

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