5.2.c - REDES SÓCIO ECONÔMICAS
Euclides André Mance
Os conceitos de rede têm uma história recente, sendo empregados na ecologia, na cibernética e posteriormente em diversas outras áreas de maneira bastante fecunda, tornando-se uma das categorias recorrentes na teoria da complexidade. Há um esforço muito grande de elaboração criativa em torno desta categoria, considerando-a nos quadros de um novo paradigma (indicado por expressões distintas, tais como teoria da complexidade, holismo, dialógica, ecologia profunda e pensamento sistêmico, entre outras).
É preciso reconhecer que estão se desenrolando atualmente, e com uma velocidade cada vez maior, múltiplos processos no campo da economia solidária. Compreendidos sob a dinâmica de redes, tratam-se de diversos processos que se tocam, se realimentam, se confundem em certas realizações e organizações, e que se diferenciam em múltiplos caminhos e resultados, engendrando diversidades que entretanto mantém características similares e singularidades distintivas.
Não há um ponto de partida, um comando centralizado, desde o qual tenham-se desencadeado todas as diversas práticas de comércio justo, sistemas de intercâmbio local, autogestão, finanças éticas, consumo solidário, etc. Igualmente não há um centro gerador que tenha feito emergir as diversas redes nos campos econômico, político e cultural que vêm colaborando entre si desde os enfrentamentos de Seattle e recentemente nos Fóruns Mundiais.
Pessoas e organizações estão integradas em diversas redes, cruzando fluxos de informações e processos mobilizativos, organizativos e formativos. Ações realizadas por certas redes provocam conseqüências em outras, sejam conseqüências valiosas ou prejudiciais aos processos em que elas atuam.
Cada um de nós que participa dessas redes de algum modo interfere nesses fluxos, seja criativamente, potencializando os desdobramentos, fortalecendo os conjuntos, promovendo autonomias e diversidades, seja de outras formas. Ter em mente os possíveis impactos coletivamente valiosos ou prejudiciais das ações que cada organização ou pessoa desenvolve em relação ao conjunto, é uma exigência ética que se coloca a todos/as.
Se pensarmos nos processos que originaram as Redes Brasileira e Global de Socioeconomia Solidária (RBSES e RGSES), encontraremos diversos fluxos que confluem naqueles momentos e que, a partir destas conexões, se potencializaram.
Graças a confluências como estas, que geraram a RBSES e a RGSES, as redes e práticas de economia solidária vem crescendo rapidamente no Brasil e em todo o mundo. Informações, experiências e práticas são re-elaboradas em diversas realidades dando origem a novas práticas, experiências e conhecimentos, desencadeando novas mobilizações, organizações e processos educativos.
A multiplicidade de práticas de intercâmbio local recorrendo a cadernetas, moedas sociais e outros expedientes é um exemplo disso. Em diversos lugares práticas similares emergem e muitas pessoas, que estavam envolvidas com essas práticas, afirmam que desconheciam as demais. Como seria possível isso? Ao que parece há um conjunto de situações similares que se configuram como um campo de possibilidades, no qual são experimentadas alternativas que se mostram bem sucedidas e que progressivamente vão ganhando projeção.
A similaridade dessas práticas emergentes poderia ser investigada considerando-se a própria similaridade dos campos de possibilidade em que elas emergem, dos desafios similares sobre os quais esses coletivos humanos estão atuando e da cultura compartilhada por essas próprias comunidades.
Quando investigamos qualquer processo, não pretendendo reduzi-lo a uma causação linear, não encontramos uma origem fundante ou centralidade.
O epicentro de um terremoto, localizado na superfície de um território, resulta de múltiplos movimentos subterrâneos. O que faz a semente brotar não é, são a luz, a água, o oxigênio ou qualquer outra causa isolada.
Do ponto de vista das redes não se trata somente de investigar quem são as organizações ou entidades que atuam nesses processos, mas as conexões que existem entre elas, os fluxos de informações, matérias e valores que as atravessam e o que esses fluxos constituem. É nessa consistência engendrada por esses fluxos que estará o novo, emergindo singularmente da colaboração dos/as participantes, ou a reprodução de estruturas anteriormente já experimentadas cujas fortalezas e limitações já são parcialmente conhecidas.
Em minha opinião, faz parte da estratégia da revolução das redes que elas sejam múltiplas e que não haja um centro que possa determinar o comportamento de cada uma delas. Igualmente faz parte desta concepção a necessidade de que todas operem de maneira coordenada, co-organizada. Estas coordenações, estas ações coordenadas, supõem a autonomia de cada organização colaborando com outras, em torno de objetivos comuns.
Estabelecer instâncias organizadoras democráticas que viabilizem a integração das diversidades que promovam as liberdades públicas e pessoais, (combatendo toda forma de exploração dos/as trabalhadores, expropriação dos/as consumidores/as, exclusão social, dominação política ou cultural e destruição ambiental), é o desafio a que estamos colocados.
Imagino que um movimento internacional, que opere democraticamente com esse objetivo de gerar e fortalecer conexões e fluxos entre organizações de economia solidária em todo o mundo, pode colaborar no avanço de todas as redes. Imagino que esse movimento possa operar como um componente importante de uma rede global. Integrar as redes em redes maiores, respeitando as diversidades fortalece a todas.
Imagino que é preciso cultivar a cultura da abertura ao diferente e da solidariedade para que esses fluxos que perpassam as diversas redes em particular, possam potencializar a todas elas.
Os Fóruns Sociais Mundiais, na minha opinião, comprovam que uma revolução das redes está em marcha planetária. O avanço dela, entretanto, depende daquilo que cada um de nós faz e vive na realidade em que está, nos grupos em que participa, no cotidiano de nossas vidas e do quanto a ações das redes em que atuamos fortalece as demais que compartilham deste mesmo projeto de colaboração solidária.
Trata-se de uma revolução nos campos da cultura, da política e da economia. Se as 900 redes de 122 países que estiveram no FSM em Porto Alegre, atuarem de maneira colaborativa entre si, não apenas no combate às diversas formas de opressão, mas igualmente na criação de novas relações humanas, de novas formas de produzir e consumir, de organizar e exercer os poderes pessoais e coletivos, de comunicar e gerar sensibilidades, em torno de uma ética que promove as liberdades públicas e pessoais para que cada pessoa possa realizar o seu bem viver, singular e único, então possivelmente nada poderá deter essas transformações
Estamos vendo nascer um mundo pós-capitalista. Se conseguirmos avançar nesta colaboração solidária, fortalecemos esta revolução. De outro lado, se as disputas pela centralidade e autoridade de comando, por parte daqueles/as que ainda não estão convencidos/as de que é preciso criar novas formas de exercer a democracia valendo-nos de todos os recursos que este novo campo de possibilidades histórico nos abre, acabarem por tentar desconectar as redes, gerando processos paralelos de agregação de organizações de economia solidária que não se comunicam, a velocidade de expansão dessas mudanças será menor, mas mesmo assim elas continuarão avançando.
Se o Movimento Monetário Mosaico viabilizar o avanço da conexão de empreendimentos de economia solidária em redes, multiplicando e potencializando fluxos de produtos, serviços, informações, tecnologias, recursos monetários, etc., entre essas organizações, adotando mecanismos de gestão democrática e descentralizada, almejando multiplicar e fortalecer as organizações de economia solidária em todo o mundo, isto será uma grande conquista.
5.2.d - CONCORRÊNCIA pelo DINHEIRO ou pelo MERCADO
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