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CONCORRÊNCIA pelo DINHEIRO ou pelo MERCADOHenk van Arkel
Redes sócio-econômicas formam uma síntese entre o mercado livre e uma economia centralmente planejada. A dinâmica interna das redes solidarias faz com que elas sejam economicamente competitivas com o capitalismo.
Mercado e planejamento
A economia capitalista coloca os interesses individuais dos poderosos no centro. Tanto ideologicamente quanto na prática é muito normal que a vantagem existente seja aproveitada em detrimento de outros. A sobrevivência do mais forte é confundida, freqüentemente, com a otimização dos resultados.
A mão invisível é reverenciada como método de organização, mas ao mesmo tempo os jogadores econômicos mais fortes não tem pudores em excluir do jogo o mercado. A forma mais crua disso é o monopólio bancário da criação de dinheiro em torno do qual cresceu uma verdadeira estrutura de Estado. Um outro exemplo é a liberalização dos mercados exigida dos países mais pobres, enquanto os países mais ricos fazem dumping de seus produtos subsidiados no mercado. E até o papel do governo de prover ensino, infra-estrutura e defesa militar é, na verdade, um exemplo disso. Afinal, numa análise detalhada uma boa parte destas ações beneficiam empresas que não pagaram por elas.
Ambos o planejamento e o mercado, têm vantagens. O mercado é uma estrutura econômica dinâmica. Porém, um mercado absoluto é catastrófico. Embora isto não seja dito abertamente, o capitalismo também reconhece as vantagens do planejamento numa economia:
O mecanismo de mercado de demanda e oferta oferece uma dinâmica eficiente para alocar produtos e fazer opções no processo produtivo a curto prazo;
Planejamento, ao contrário, é uma excelente forma de calcular os processos a longo prazo e de escapar de muitos dos ‘dilemas de prisioneiros’ que formam a base da ineficiência da economia de mercado capitalista. Planejamento se coloca acima do interesse individual imediato.
Corporações muito grandes, cartéis e empresas com um monopólio são na verdade uma mistura de economia de mercado e economia planejada. Em termos de complexidade, seu planejamento interno não é menor do que os planos qüinqüenais nos países comunistas.
Este tipo de empresas tem um relacionamento muito paradoxal com os consumidores: por um lado tentam manipular o consumidor e força-lo a se enquadrar no seu planejamento e, por outro, seus departamentos estão bastante conscientes da importância de cair nas boas graças do consumidor.
Gerenciamento de estoques por meio de código de barras e perfis de clientes com base em cartões de ‘cliente especial’ dirigem cada vez mais a produção e a logística. Nos caixas são colhidas muitas informações que tornam-se prontamente disponíveis no coração da organização. Assim, numa mega-empresa como o BIG ou CARREFOUR o planejamento se apoia cada vez mais nos consumidores e suas preferências.
Há muito tempo empresas independentes se organizam para obter uma oportunidades semelhantes. As mais antigas são as redes horizontais, em especial aquelas que têm como objetivo a aquisição de mercadorias a preços mais baixos.
Uma tendência muito mais recente dos jogadores independentes no mercado são as redes verticais. Assim, também para eles torna-se possível a troca de informações e um planejamento mais complexo. Ao par disso as vantagens da independência são preservadas e surge uma combinação efetiva de responsabilidade própria, iniciativa e dinâmica de mercado.
A Economia de redes como síntese entre mercado e planejamento central
Os participantes da Economia Solidária buscam alternativas para o mercado capitalista, porque a perseguição obrigatória do lucro pela concorrência levou à exploração das pessoas e do ambiente, e porque a acumulação de bem-estar nas mãos de poucos é ineficiente. Muitas das desvantagens ficam por conta da comunidade em geral e dos grupos mais pobres em particular.
Mas também sabemos que a economia planejada era, muitas vezes, ineficiente. Os processos de produção ficavam distantes das necessidades dos consumidores e o acúmulo de poder político necessário para executar tal economia planejada, revelou-se um mecanismo de exploração.
A economia solidária tem determinadas características específicas que a colocam em posição de realizar uma combinação ótima entre planejamento e mercado. Na economia solidária é essencial que a comunidade local tenha um papel maior. Por meio disso o indivíduo, o consumidor, é envolvido mais de perto com a formação da realidade econômica. Colaboração em redes locais de consumidores e produtores formam a síntese entre a liberdade de escolha e a colaboração e planejamento inteligentes, entre os objetivos do produtores e as necessidades dos consumidores. A economia das redes parece resolver alguns dos erros sistemáticos do sistema capitalista dominante e oferece aos indivíduos e à comunidade uma chance de ganhar honestamente seu pão de cada dia e desenvolver bem-estar.
Na economia solidária, uma rede é, na verdade, um pacto entre os participantes livres, às vezes indivíduos, às vezes cooperativas, empresas e consumidores. Sua colaboração não é imposta pela propriedade mas é conseqüência de sua livre escolha. Dentro da economia de redes cada participante é independente e autônomo. Estamos falando, portanto, de empresas e consumidores independentes, organizações e indivíduos que tomam decisões independentes acerca de seus objetivos, seus métodos e seus recursos, com todas as vantagens disso. Ao mesmo tempo há um nível de comunicação e sintonia mútua que torna a rede mais eficiente do que um mercado com concorrência plena.
Com uma boa compreensão do sistema monetário e adotando-se conceitos que as multinacionais aplicam com sucesso, é possível organizar as redes de tal forma que a concorrência pelo meio de troca (dinheiro) não é necessária e a capacidade de investimento é aplicada de forma ótima. Sistemas de compensação internos entre os membros independentes oferecem as mesmas vantagens de financiamento que uma multinacional tem internamente. Só que a economia solidária pode alcançar isso sem necessidade de reunir todos os participantes em uma única estrutura de propriedade.
Assim a economia solidária pode ter uma enorme aceleração em seu crescimento (fluxo). Esta prática é descrita em outra parte deste livro.
Novos desenvolvimentos, novas bases:
Evitar concorrência desnecessária e planejar a combinação de produção mais favorável
Qual é a aparência de tal moderna rede de consumidores-produtores solidários? Onde ocorre a colaboração e onde ficam a concorrência e o funcionamento de mercado?
De início os participantes da economia das redes se dão conta de que dependem uns dos outros. Para tornar a produção eficiente a informação deve ser compartilhada.
Se muitos membros da rede se direcionarem para o mesmo segmento de mercado, ocorrerá produção a custos marginais ou até abaixo destes. Isto é desvantajoso para todos, inclusive para os membros-consumidores, pois nesta situação uma parte da energia produtiva comunitária está sendo aplicada de forma ineficiente. Não há vantagem para ninguém se há muitos taxistas numa cidade. Eles próprios e seu capital ficam ociosos. Para os consumidores isto pode parecer vantajoso: ter sempre um taxi disponível a um preço mínimo! Mas desta maneira desperdiça-se muita energia e isto traz prejuízos para toda comunidade. Nós estamos tão acostumados ao desemprego sempre presente no capitalismo, que mal percebemos o que isto significa na verdade: Desperdício de possibilidades.
Uma concorrência muito grande faz com que ninguém tenha rendimentos suficientes para garantir um padrão de vida razoável. Ao mesmo tempo retira-se mão-de-obra valiosa do mercado. Uma rede de economia solidária tem condições de resolver este problema. Se, dentro da rede, há possibilidade de oferecer outro tipo de trabalho a uma parte dos membros, a energia gasta na concorrência pode ser aplicada na obtenção de uma maior produção total e assim proporcionar mais bem-estar dentro da rede. Por isso são incluídos nas redes mecanismos pêlos quais os membros podem decidir, em conjunto, quais as pessoas mais indicadas para aprofundar uma especialização ou se especializar em outra área, uma que seja mais apropriada para ele/ela e, ao mesmo tempo, proporcione à rede como um todo uma perspectiva de produção adicional. Graças às técnicas atuais é fácil realizar os cálculos necessários para tal. Assim, Euclides Mance desenvolveu um software que pode calcular, a qualquer momento, a eficiência de diferentes partes da rede. Com isto pode se tomar a decisão mais favorável no que diz respeito à produção e divisão. Um exemplo disso é o método do leilão, no qual as próprias empresas decidem qual está em melhores condições para mudar de ramo.
Esta possibilidade de planejamento conjunto torna-se realmente eficiente se a rede tem condições de financiar novas empresas: assim que as informações demonstrem que há necessidade de mais padeiros, é necessário dispor de recursos para financiar estes padeiros.
Para tanto uma parte da vantagem gerada deve ser recuperada para poder adquirir os meios ou para realizar os necessários investimentos, em condições e capacidade, que ajudarão, neste exemplo, o ex-motorista de taxi a iniciar uma nova atividade. Se isto for conseguido surge um resultado final que é mais favorável para todos os membros da rede e, portanto, também para o consumidor.
As redes da economia solidária podem aprender muito com a circulação de informação dentro das grandes corporações. Assim os cartões de cliente especial das empresas alimentam as grandes corporações com informações estratégicas: com base nos dados de vendas e de estoque nos pontos de venda realiza-se o planejamento do estoque e da produção. Também são tabulados os dados relativos às preferências, com base nos quais são desenvolvidos novos produtos, é dedicado mais atenção à propaganda ou a embalagem e forma de manuseio e uso são modificadas (adequadas). Uma grande corporação realiza, com seus computadores, uma economia planejada em miniatura.
Para poder concorrer, as empresas independentes devem poder dispor de possibilidades comparáveis. Elas podem se reunir em redes e direcionar o planejamento e integrar informações acerca dos desejos dos consumidores.
Compensação interna na Rede:
A economia das redes pode aprender sua mais importante lição da Moeda Social: a compensação do comércio mútuo em unidades próprias dentro de uma estrutura própria.
É vital para a sobrevivência da rede que o poder aquisitivo existente permaneça o maior tempo possível circulando dentro da rede. Este é transferido de um para outro. Se para estas compensações internas / mútuas não houver mais necessidade de dinheiro, os custos dos juros na cadeia tornam-se menores. Finalmente, a rede estará em condições até de realizar a maior parte dos novos investimentos dentro da rede. Isto significa que os custos do capital não serão mais onerados com juros. E, sem juros sobre os meios de produção, os produtos que circulam na cadeia tornam-se cada vez mais baratos. Com isso a cadeia tem uma resposta efetiva em mãos para a vantagem semelhante que agora é monopolizada pelas grandes corporações.
Estes métodos de compensação interna para redes dentro da economia solidária já estão sendo desenvolvidos e aplicados neste momento. Parece-se um pouco com a Moeda Solidária, só que são mais complexas do que as formas mais conhecidas das mesmas. Leia mais sobre o assunto no capítulo 4.6.
Resumo:
Na Economia das redes a colaboração é a fonte do bem-estar e a concorrência pelo dinheiro é eliminada. Só há concorrência por um segmento de mercado, e a rede como um todo apoia a especialização de seus participantes naquilo em que são melhores. A rede, em geral, tem mais vantagens nessa especialização do que na concorrência.
Se a economia das redes também aplicar o sistema de compensação interno, além de ter uma vantagem na eficiência ela terá uma vantagem de juros sobre o ‘mercado livre’ capitalista.
5.2.e - JIU-JITSU SÓCIO-ECONÔMICO: Como Aplicar de Forma Positiva Dinâmicas Existentes
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