5.2.e - JIU-JITSU SÓCIO-ECONÔMICO:
Como Aplicar de Forma Positiva Dinâmicas Existentes
Henk van Arkel
Até agora o dinheiro solidário funciona principalmente complementando o sistema monetário dominante. O sistema monetário capitalista funciona tão mal, que metade da humanidade é freada no desenvolvimento de suas possibilidades. Às margens da modernidade surgem "desertos de dinheiro". Nas zonas de transição, o dinheiro local e o microcrédito preenchem as lacunas.
Ao mesmo tempo o sistema monetário está explodindo e estamos às vésperas de uma batalha mundial pela atividade mais lucrativa que há na terra: a criação de dinheiro, na qual a partir de nada mais do que papéis são criados valores que em seguida são emprestados a juros.
Com este pano de fundo, o movimento do dinheiro solidário cresce em direção à sua maturidade e à próxima fase, o Jiu-jitsu.
Jiu-jitsu é um esporte de luta japonês. Neste esporte a energia agressiva do atacante é transformada na arma mais importante do atacado para atingir seus próprios objetivos. A arte do Jiu-jitsu é, ao invés de demonizar o oponente, manobrá-lo com esperteza e utilizar a sua energia em prol de seu próprio objetivo.
Traduzido para nosso tema: utilizar a energia do sistema monetário em favor dos objetivos próprios do novo dinheiro solidário.
E, concretamente, quais são os objetivos próprios? Para aprender a enumerá-los precisamos percorrer um caminho. Nós estamos tão acostumados a viver numa sociedade que foi e é criada pelo dinheiro centralizador que nossa forma de raciocínio está totalmente afinada com ele. Por isso, freqüentemente, os objetivos são, na verdade, objetivos defensivos emprestados:
Unir-se ao mercado mundial,
Poder usufruir, também, das conquistas materiais.
Devemos ser conscientes de que devido à criação centralizada de dinheiro ocorreu uma concentração no desenvolvimento. No momento em que este desenvolvimento existe, existe uma vantagem, e as demais evoluções ajustam-se a ela. Veja por exemplo o dinheiro de poupança que flui do meio rural para a cidade e outras regiões ricas, porque é lá que os investimentos rendem mais. A conseqüência disso é que no meio rural surge escassez de dinheiro, gerando estagnação no desenvolvimento.
Dinheiro solidário ancorado na colaboração em rede cria uma outra situação e, portanto, desenvolverá outras possibilidades e necessidades.
Ao final prevejo um desenvolvimento no qual a essência não é: consumir ou concorrer, mas especializar-se naquilo em que se é melhor. A satisfação proporcionada pelo desenvolvimento da própria capacidade poderia ser para o indivíduo a coisa mais importante em sua vida. O Jiu-jitsu que é aplicado pela economia solidária é, então, dirigida para esta realização e utiliza, para tanto, a energia do sistema monetário agressivo.
Chegou a hora da economia solidária não só reagir mas também definir seus próprios objetivos e implementar uma economia de redes nas quais as vantagens da colaboração sejam mais atraentes para os participantes do que aquelas de estar só num mundo que concorre pelo escasso dinheiro virtual. Não só os objetivos próprios passam a ser o foco central mas, além disso, a defesa não está mais baseada exclusivamente na reação.
Tomemos como exemplo a energia de um rio que desce a montanha. Podemos nos opor a ela. Construir diques em torno do rio, represas, etc. Mas também podemos usar esta energia em nosso próprio benefício. Canalizamos a água para onde ela nos será útil e a fazemos descer a montanha pela rota que nós escolhemos. Assim a água pode ajudar-nos a formar vales e a mover montanhas.
Qual é a aparência deste Jiu-jitsu na prática?
Neste momento somos ameaçados pela escassez de dinheiro. A concorrência não ocorre só pelo mercado consumidor mas também pelo financiamento. As empresas sentem-se obrigadas a se colocarem como oponentes.
Na economia das redes as empresas colaboram. Nela as empresas se dão conta de que o valor de cada novo dinheiro de empréstimo taxado com juros pelo banco, está baseado na capacidade de produção que as próprias empresas realizam. Assim, você paga por seu próprio desempenho. Dinheiro solidário oferece às pessoas a oportunidade de utilizar essa energia em benefício delas mesmas. E o Jiu-jitsu se completa quando as redes da economia solidária liberarem o dinheiro administrativo atualmente utilizado para transações entre elas e passarem a utilizá-lo para o desenvolvimento da própria rede.
Lição 1
A longo prazo são as leis que regem a estrutura subjacente que darão forma à sociedade no futuro.
Com a sociedade ocorre o mesmo que com uma paisagem e um país. A situação atual do país é resultado de inúmeras atividades, investimentos, decisões, deliberações, decisões políticas entre outros. Mas a situação geográfica, relevo, características de solo e clima tiveram grande influência em cada uma dessas decisões, deliberações políticas etc. Não podemos executar nada que as condições físicas preexistentes não permitam.
O mesmo ocorre na sociedade. A sociedade é um jogo de poder complexo com vários mecanismos, padrões, causas e conseqüências. Desejos e esperanças e possibilidades e impossibilidades das pessoas de várias naturezas e empresas, institutos e governos, tudo isso desempenha um papel. Acrescente a isso todas as possíveis interações, relações não-compreendidas, mecanismos de reação e outros, e temos a imagem de uma sociedade sem direção. Uma sociedade na qual praticamente nenhuma das medidas tomadas pelo governo para reverter seja qual for a situação terá o efeito desejado e onde nós também não conseguimos produzir nenhuma mudança direcionada.
Mas esta imagem é real? Os padrões de individualização e globalização da economia ocorrem por acaso? Ou eles são decorrentes de condições subjacentes?
A sociedade pode ser um jogo de poder complexo, mas algumas condições subjacentes determinam os limites dentro dos quais ela pode se desenvolver, condições circunstanciais que estimulam determinadas mudanças e dificultam outras. Estas condições circunstanciais muitas vezes estão tão entrelaçados com as mudanças, que são facilmente ignoradas e esquecidas nas discussões. Mas elas determinam em elevado grau quais mudanças são possíveis e quais não.
Imagine agora que é possível modificar uma das condições subjacentes. Isto pode ter enormes conseqüências. Vislumbram-se novos desenvolvimentos. Talvez nós possamos criar novas condições circunstanciais para a sociedade que tornem possíveis as mudanças que agora são considerados utópicas e impossíveis.
Lição 2:
Nós não optamos por impedir, mas sim por mudar as dinâmicas. Veja o exemplo da água que desce com o rio: melhor do que tentar contê-la com uma enorme represa, é construir uma pequena represa mais próxima à nascente e mudar seu o curso do rio.
É isto que Strohalm faz ao concentrar-se no sistema monetário. Nós tentamos mudar o curso da dinâmica do sistema monetário. Para isso nos reunimos e repassamos conhecimento internacional. Por isso introduzimos LETS nos Países Baixos, colaboramos com outros na constituição de bancos sem juros e temos projetos-piloto de colaboração entre agricultores e consumidores. Entre outros.
Utopia e pragmatismo
A essência do Jiu-jitsu é que você mantém sua identidade.
O movimento de dinheiro solidário pode, a partir do amor pelos próprios objetivos e confiança na própria força criar uma pequena realidade própria a partir do qual podemos dar o próximo passo.
Strohalm trabalha na realização dum sonho: que as pessoas possam investir seus próprios valores a favor de seu próprio desenvolvimento. Muitos ainda não conseguem ver que isto é realmente possível. Por isso precisamos quebrar nossos dogmas e paradigmas.
Voltando ao exemplo da montanha e o rio: é muito mais viável dar forma ao mundo de maneira dinâmica e pró-ativa do que proteger um pedaço restrito do mesmo contra as mudanças.
Ao mesmo tempo trabalhamos de forma pragmática. Isto quer dizer: todos os passos intermediários que damos, devem ser viáveis do ponto de vista material.. Um movimento monetário social que só funciona se as pessoas precisam fazer grandes sacrifícios pessoais, não está baseado em colaboração e sim nesses sacrifícios.
O objetivo básico é escolher nossos alvos de modo bastante estrutural em um processo no qual também mostramos nossos ideais.. Mas em seguida analisamos de modo bastante pragmático, comercial e criativo o que podemos fazer.
A base de um desenvolvimento saudável é a possibilidade (e não a obrigação!) de especialização e a colaboração e intercâmbio com outros especialistas.
Em sua análise de desenvolvimento, Strohalm parte de duas concepções: especialização e intercâmbio. Para realizar tarefas complexas ou ordenamentos sócio-econômicos complexos, é necessário de os diferentes participantes se especializem em tarefas que, desta maneira, podem ser realizados de forma mais eficiente. Mas esta especialização só é possível se há um intercâmbio entre as diferentes iniciativas. Para dar forma a este intercâmbio, fazemos uso, em sociedades complexas, de um símbolo abstrato: dinheiro. Este dinheiro é o lubrificante que facilita nossos intercâmbios e, portanto, em nossa especialização é o que torna possível o desenvolvimento.
No entanto, parece que esta lógica funciona, atualmente, também de forma contrária: se o símbolo abstrato (dinheiro) não circula por esta ou aquela razão, ocorre estagnação não só no intercâmbio mas também na especialização e no desenvolvimento. Na verdade isto é estranho: o dinheiro só deveria ser necessário para facilitar nosso desenvolvimento. Afinal, o essencial para o desenvolvimento é a quantidade de matéria-prima, capital, capacidade de organização e trabalho disponíveis, que não se altera com a exclusão do dinheiro como meio de auxílio organizacional.
Daremos um passo importante se conseguirmos criar sistemas que permitam conquistar territórios do dinheiro capitalista.
Da conquista de territórios
Como funciona isso, conquistar territórios do sistema monetário?
Isto é feito tirando do jogo o sistema monetário justamente nos locais onde ele se fortalece. Vimos que o sistema monetário provoca um déficit na economia produtiva tornando-a obrigada a pagar tributos à economia financeira. Desta maneira, na economia produtiva, sempre há necessidade de dinheiro novo.
O dinheiro que havia em circulação para transações mútuas já saiu de circulação e foi usada no pagamento de créditos anteriores. O déficit assim gerado é preenchido com dinheiro novo que entra em circulação para investimentos, hipotecas e crédito ao consumo. Assim surgem, constantemente, novas dívidas.
É exatamente neste nível, das constantes novas dívidas, que queremos tirar do jogo o sistema monetário. Fazemos isto criando nossos próprios créditos que nós mesmos garantimos com nossos próprios valores, os mesmos valores que até agora temos gasto à toa com os bancos.
Método
Há vários métodos para compensar nossas transações mútuas fora do sistema monetário. Em primeiro lugar existem, em nível pessoal, tipos de dinheiro que não são garantidos e que circulam, em quantidades relativamente pequenas, entre indivíduos. Estes tipos de dinheiro tornam possível um comércio que de outra forma não existiria.
Assim que entram em cena empresas, governo, organizações, etc., o uso de meios de troca sem garantia torna-se perigoso e precisamos dar um passo adiante. Empresas podem realizar trocas mútuas com base no valor de suas produção. É isto que ocorre nos círculos de Barter. A desvantagem destes círculos de Barter é que as necessidades das empresas, em geral, são muito específicas. É uma coincidência muito grande quando estas necessidades estão representadas dentro de um círculo. Por isso, o círculo de Barter só funciona quando há intensa intermediação ou quando um círculo é tão grande que é possível conseguir dentro dele quase qualquer coisa.
A maior força pode ser esperada de sistemas que partem do dinheiro que agora circula entre nós, e que usam este dinheiro para apoiar a economia solidária. Para fazer isso, tiramos este dinheiro do circuito e substituímos o mesmo por uma moeda solidária. Em seguida usamos esse dinheiro para fazer com que a economia solidária ganhe território do mercado capitalista.
É isto o que entendemos como uma estratégia de jiu-jitsu, e é esta estratégia que nos achamos um caminho saudável à vitoria de nossos propósitos.
5.2.f - APREENDER com as MUDANÇAS de HOJE para APROVEITAR as CHANCES
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