Movimento Monetário Mosaico

5.2.f - APREENDER com as MUDANÇAS de HOJE
para APROVEITAR as CHANCES

Henk van Arkel e Camilo Ramada

        Se queremos utilizar as dinâmicas existentes para realizar nossas utopias, praticando um jiu-jitsu socio-economico, é interessante saber algumas das dinâmicas que especialmente são favoráveis para o Movimento Monetário Mosaico.

         A essência do dinheiro está mudando no mundo todo.

        Muda a essência do dinheiro mundialmente. Hoje em dia surgem muitas novas formas de dinheiro. Várias delas são de forma solidária, mas grandes mudanças também acontecem no centro do capitalismo, como foi anunciado pelo vice-presidente do banco central inglês, Mervin King.

        São tempos históricos: o movimento solidário pode apoderar-se desta dinâmica histórica e das técnicas que são desenvolvidas hoje.

        Um breve resumo histórico da evolução do dinheiro e dos sistemas monetários mostra que não estamos ‘amarrados’ ao sistema atual. Além disso, transformações recentes do sistema monetário oferecem pontos de apoio para realizar uma mudança.

        Muitos livros que descrevem a história do dinheiro, sugerem que há um seqüência evolutiva fixa: primeiro não havia dinheiro e as trocas eram primitivas. Em seguida começou-se a usar conchas como meio de troca. Mais tarde foram substituídas por moedas de ouro e então surgiu o dinheiro moderno.

        Esta descrição simplificada e linear não é coerente com a realidade. O mundo teve uma grande variedade de sistemas monetários. Os antigos sumérios e egípcios conheciam contas correntes em bancos de cereais, onde o trigo era lastro para transações monetárias. Era um sistema de compensação de aparência bastante moderna, porem com uma dinâmica bem diferente da nossa. Há menos de cem anos cada banco nos Estados Unidos da América emitia suas próprias cédulas e o valor das cédulas de um banco podiam variar em relação ao valor de outros.

        Recentemente, também houve várias mudanças. Desde que o presidente Nixon eliminou, em 1971, o vínculo entre dinheiro e ouro, o dinheiro passou a ficar cada vez mais distante de seu valor real e, neste capítulo, você verá que atualmente estamos às vésperas do desaparecimento do papel de garantia e emissão de dinheiro dos bancos.

        O segredo de qualquer sistema monetário bem sucedido é fazer circular poder de compra suficiente e suficientes meios de troca para seu próprio desenvolvimento regional. O grande incremento no bem estar nos Países Baixos no século dezessete tornou-se possível, entre outros, pela emissão das primeiras ações do mundo. Estas eram ações da União da Companhia das Índias Ocidentais. Como todos, claramente, lhes atribuíam valor, estas ações podiam ser utilizadas como meio de pagamento. Na prática, isto provocou um grande aumento na quantidade de dinheiro nos Países Baixos. Isto também contribuiu para que o século dezessete se tornasse, para os Países Baixos, o Século de Ouro.

        A grande aceleração pela qual passa a economia hoje em dia exige muito dinheiro para organizar o comércio entre as partes. E, também agora, as ações, que possuem valor como se fossem dinheiro, desempenham um importante papel. Atualmente é comum que uma empresa que adquire outra empresa, pague esta compra com suas próprias ações

        Assim há mais variações de dinheiro que, propositadamente ou não, levam a um aumento na quantidade de meios de troca. No Brasil, as empresas que estão com pouco dinheiro em caixa pagam com cheques pré-datados, de maneira que sejam compensados futuramente. Como aqueles que recebem estes cheques não querem aguardar o dia do vencimento, eles utilizam estes cheques para pagar outros. Desta forma se criou um novo meio de troca.

        A decisão de Nixon, em 1971, de eliminar a garantia de que cada dólar podia ser trocado por uma determinada quantidade de ouro teve grande influência sobre a quantidade de dinheiro (digital). A conseqüência desta decisão foi uma grande aceleração no crescimento da quantidade de dinheiro. Como o valor de um crédito em dólares tornou-se incerto, por desvincular-se da garantia em ouro, os bancos europeus passaram a disponibilizar suas reservas em dólar, desenfreadamente, para empréstimos em eurodólares. Com isto houve um aumento explosivo na quantidade de dólares em circulação

        Graças, inclusive, à tecnologia de informação, a circulação de dinheiro pode expandir-se, na última década do século vinte, a proporções desconhecidas. Com a introdução do cartão de crédito e as inovações hipotecárias surgiu um círculo de crédito especulativo de grandes proporções. Neste surgiram, em torno do dinheiro e bens empresariais, uma grande variedade de títulos que podem ser comercializados. Valores que são criados em mercados futuros e bolsas de valores, são utilizados para transações cada vez mais volumosas. E assim elas diminuem cada vez mais o papel do ouro no cofre dos bancos centrais.

        É claro que os banqueiros centrais também observaram estas mudanças. No verão de 1999 observamos, pela primeira vez, uma reação. Mervin King, o segundo homem no comando do Banco da Inglaterra, fez uma palestra para uma platéia seleta de diretores de bancos centrais e outros gurus monetários influentes. Nesta ocasião ele anunciou o fim do sistema monetário tal qual o conhecemos hoje. Ele postulou que os Bancos Centrais não continuarão sendo a base financeira do sistema monetário. No máximo, ofereceriam a unidade de cálculo. Esta unidade de cálculo seria utilizada para expressar o valor dos bens e serviços, enquanto novos sistemas de compensação seriam utilizados para realizar as transações de fato.

        Por isso, segundo King, a função de troca do dinheiro será cada vez menos utilizada. O dinheiro garantido por estados e bancos terá que concorrer, cada vez mais, com outras formas de compensação e garantias de valores. Assim, o mundo tornar-se-á, novamente, uma economia de troca, profetizou King: "Futuramente, nada impedirá que dois indivíduos realizem uma transação por meio duma transferência de valores de uma conta virtual para outra. O comprador pode pagar com qualquer meio desde que para tal haja um preço de mercado." Portanto, calcula-se em dólares ou euros mas: "assim que os acordos estiverem claros e os computadores tiverem potência suficiente, uma instituição privatizada poderá assumir o controle do trânsito do dinheiro que hoje é feito pelo Banco Central.", afirma King. "Sem esta função o Banco Central deixa de existir na sua forma atual, e o dinheiro também."

        As moedas nacionais são cada vez mais só um instrumento de cálculo; são os mercados quem determinam o valor. Do dinheiro hoje em circulação somente 3% são moedas e bilhetes emitidas por governos. O resto são estas formas virtuais de valores aceitados como dinheiro. Graças aos cabos de fibra de vidro e os computadores, os valores de mercado deslocam-se na velocidade da luz sobre a terra. No que diz respeito ao dinheiro, limitações de tempo ou espaço fazem parte do passado!

        Em meio a estas transformações os governos já perderam, há muito tempo, o controle sobre as moedas nacionais. O dinheiro público em si é, cada vez mais um, dos alvos da especulação. As especulações monetárias que levaram às crises financeiras, entre outros na Ásia, México e mais recentemente Turquia, são conseqüências disso. O surgimento de moedas num contexto maior, como o euro e a dolarização da América Latina, são respostas a estas transformações. Isto mostra que, para muitos governos, a emissão de um meio de troca tornou-se muito difícil ou ineficiente.

A crise como chance

        O mundo do dinheiro está, hoje, num processo de transformação tão intenso que tudo é possível. Principalmente agora que o dinheiro digital substituiu uma parte importante do dinheiro visível (material). Na prática estas transformações levam, no momento, principalmente, ao caos e a efeitos desastrosos para milhões de pessoas. Dinheiro digital, porém, também oferece oportunidades. O ponto de equilíbrio das forças se desloca e, utilizando as transformações, podemos realizar melhorias estruturais.

        Agora que, possivelmente, a tecnologia moderna de informação irá substituir o sistema monetário vigente e que novos sistemas monetários surgirão, podemos fazer uso dessas novas oportunidades para criar sistemas monetários sociais e sustentáveis.

        É claro que a fonte mais provável do ‘dinheiro’ futuro são os grandes conglomerados. Eles são conhecidos pêlos consumidores do mundo inteiro e o dinheiro que eles garantam recebem maior confiança e credibilidade, pois são mais conhecidos e têm maior capacidade de produção. Desde já, centenas de milhões de consumidores acumulam ‘pontos’ em sistemas de lealdade do consumidor. Estes pontos são cada vez mais usados como dinheiro. Em Holanda, por exemplo, quem acumula Freebies quando compro gasolina nos pontos da Brittish Petroleum, pode utilizá-los na loja Kijkshop como se fossem euros. Desta forma estas dois empresas estão criando seu próprio dinheiro!

        Se estas mudanças continuarem, o faturamento dos juros desloca-se dos bancos para as grandes empresas. Não temos a ilusão de que as pessoas pobres terão melhor acesso aos meios de troca ou dinheiro para investimentos. Portanto, esta mudança não representa uma melhoria.

        Mas se pararmos de olhar para a pobreza como se fosse insolúvel, então podemos construir a novas formas de dinheiro que dariam oportunidades verdadeiras para os pobres.

        Podemos aprender das mudanças atuais e descobrir quais oportunidades elas nos proporcionam na qualidade de consumidores e de empresa independente. Eu acho que, então, teremos uma oportunidade única de construir um mundo no qual a pobreza poderá ser eliminada em grande parte, onde o crescimento pessoal esteja acessível a um maior número de pessoas e a colaboração será mais importante do que a concorrência. Pode ser que haja mais possibilidades do que esperávamos em nossos sonhos mais ousados!

        Pois, enquanto o sistema monetário sofre intensas transformações, em nível popular o homem está desmistificando a magia do dinheiro: a Economia Solidária ensina, cada vez mais, como aplicar os segredos dos sistemas monetários em benefício próprio e como realizar seu comércio em sistemas próprios, independentes do dinheiro dos bancos. Estas transformações já levaram centenas de milhares de participantes aos Clubes de Troca e, neste momento, vários métodos estão sendo examinados para elevar a função de troca e investimento do Dinheiro Social acima do nível dos prosumidores e aplicá-lo em sistemas de comércio complexos nos quais tanto produtores quanto consumidores têm seu espaço.

        O que o Movimento Monetário Mosaico tem que se realizar é que nas mudanças de hoje se desenvolvem no centro do mundo capitalista novas técnicas monetárias. Este conhecimento devemos utilizar para melhoras nossas próprias propostas e criar moedas sociais tão avançadas, tão potentes e tão independentes dos poderes dos bancos como os grandes poderes produtivos já estão fazendo.

        Se nós, enquanto consumidores e empreendedores independentes fizermos como as grandes empresa e também fizermos o menor uso possível de dinheiro para administrar nossas atividades econômicas, podemos transformar a crise atual no sistema financeiro numa oportunidade para os movimentos populares. Se realizarmos a maior quantidade possível de transações dentro de um sistema de compensação interno, podemos ter as mesmas vantagens que os grandes conglomerados. O que queremos realizar e uma colaboração internacional que una redes de comércio locais. Nesta colaboração internacional os participantes dos países ricos têm interesse em intercâmbio com regiões mais pobres pois, quanto maior a [relação de] colaboração, tanto menos dinheiro (a juros e, portanto, caro) será necessário. Dinheiro digital que somente é utilizado para administrar transações mútuas custa muito pouco. Assim esta [relação de] colaboração oferece espaço aos mais pobres para trocas mútuas. E acesso ilimitado a trocas mútuas é um dos pilares para uma estrutura social e qualidade e volume de produção.

        Esta transformação torna-se especialmente rica em oportunidades se as empresas independentes se derem conta do montante dos encargos decorrentes de juros com o qual eles arcam e como eles podem reduzi-los realizando - da mesma forma que as maiores empresas - a maior parte da compensação de seu comércio fora do sistema monetário.

        Cada circuito econômico, cada rede que tornar seu sistema de compensação independente do dinheiro bancário, consegue grande economia de custos e pode dinamizar muito suas atividades econômicas. Portanto, vamos aprender com os métodos que já estão sendo desenvolvidos por empresas capitalistas e utilizá-los para tornar a Economia Solidária independente do pagamento de juros aos centros financeiros!

6 - O Movimento Monetário Mosaico: uma utopia pratica

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