Movimento Monetário Mosaico

7.1.d - AÇÃO INTERCOOPERATIVA EM REDE COOPERATIVA

LIMITES E POSSIBILIDADES

Paulo Peixoto de Albuquerque

       "Para nós, a palavra não é nociva à ação, o que o é, é não nos informarmos através da palavra antes de nos lançarmos na ação" Tucidides, Guerras do Peloponeso, livro II, discursos de Péricles aos Atenienses, cap. 15

Apresentação

        Nossa intenção neste texto é de identificar os limites e as possibilidades de uma proposta de intercooperação concreta, cuja formatação em rede de cooperativas aparece como prática social inovadora. Pensar Redes cooperativas como alternativa diferenciada e, principalmente, como um instrumento modelador da ação coletiva é fundamental quando se tem presente o cenário do Movimento Mosaico Monetário, principalmente porque este movimento pode permitir o alinhamento de cadeias produtivas que promova a recuperação de determinados setores ou espaços econômicos.

        A planificação ou planejamento de ações intercooperativas na forma de redes, tem uma pretensão que se evidencia nos adjetivos normalmente usados quando se pretende caracterizar este tipo de ação: global, integral, integrada, diversidade, extensividade e intensidade.

        Entretanto, é preciso ter presente que este desejo de mudança não significa apenas um exercício lógico-técnico, visível no planejamento ou na racionalidade instrumental que define objetivos e metas, mas em uma ação coletiva, cuja intencionalidade se concretiza num exercício político que propõe novas práticas sociais de redistribuição de poder entre diferentes atores sociais.

        Se não produz uma ação efetiva e modificadora da realidade, a atividade torna-se ou uma investigação (pesquisa), somente uma concepção, cujo produto é informação técnica que tem por propósito de maximizar a racionalidade, ou, é ação improvisada, emotiva, rotineira sem objetivos definidos de transformação qualitativa da realidade, por ser puro exercício de administração "mais ou menos" eficiente.

       Entendemos que discutir formas de planejar a ação coletiva tem um duplo sentido: o primeiro de potencializar e maximizar a racionalidade dos atores sociais envolvidos e, segundo, articular dois tipos de saberes: o conhecimento técnico-científico com os saberes locais, com os saberes instalados na comunidade.

        O que não é muito comum ou fácil, porque freqüentemente, os planos-programas e projetos não se transformaram em ações, porque são apenas instrumentos de uma racionalidade instrumental.

        As razões são várias: uma delas é o inadequado desenho das estratégias de implementação, seja por estarem desvinculadas da realidade, seja por não estarem suficientemente integradas (geralmente caracterizam-se por ser um conjunto desarticulado de ações setoriais); outra é a relativização ou desconhecimento pelos decisores do cenário político.

A metodologia

        Quando se analisam metodologias de ação e organização política, como esta proposta de de redes cooperativa, a tendência no meio acadêmico é de considerar os pressupostos técnicos (know-how) como um produto técnico no qual a agregação e seleção de determinados tipos de conhecimentos apenas confirmam uma série de procedimentos de uma cultura técnica ou científica universalmente aceita.        É evidente, que entre a aplicação do conhecimento técnico e o modelamento da praxis, em uma situação concreta e particular, existem situações que derivam do modo como o sujeito social - individual ou coletivo - efetua e se apropria da referida tecnologia ou conhecimento técnico. Mas, por outro lado é preciso ter presente que ao utilizar seus conhecimentos o sujeito concreto o faz a partir de um "ponto de vista" (disciplinar) e não os aporta na sua totalidade em "estado de arte".

       Assim como um ator social, - uma cooperativa, um sindicato ou um governo, por exemplo - tem embutida na sua ação uma dada percepção cultural e ideológica da área em que atua, os indivíduos trazem uma visão particular que é marcada pela informação seletiva que receberam e esta impregnada na sua memória. São os , "filtros" psicológicos e emotivos que resultam de uma "história" pessoal na qual a acumulação de conhecimentos permite que este indivíduo, organize sua experiências, sua própria história, seus valores e os motivos da sua ação.

       Nesse sentido, todo - plano de ação intercooperativa e de organização em redes - resultará do modo como o grupo percebe os problemas apresentados pelo cenário sócio/político/econômico da sua realidade.

       Dito de outro modo, a articulação das propostas técnicas no campo da racionalização da praxis se converte em um exercício lógico de articulação de diferentes níveis de saberes que ao serem explicitados por um ator concreto, - o representante da cooperativa - individual em situações concretas possibilitará o alcance de finalidades definidas em conjunto como por exemplo: "alinhamento de unidades produtivas do setor cooperativo ".

        Assim sendo, a planificação de uma proposta intercooperativa e em rede pretende introduzir o máximo de racionalidade possível na modelagem das ações políticas e econômicas a partir da perseguição de objetivos definidos a priori como sendo prioritários e urgentes.

        O processo de organização da rede cooperativa percorre algumas etapas constitutivas que precisam ser descritas para melhor compreensão de seus limites e das suas possibilidades.

1. ETAPAS DA METODOLOGIA

         Quatro são as etapas que caracterizam a seqüência lógica constituinte da metodologia de organização da rede intercooperativa utilizada nesta experiência. Vamos detalhar aquelas correspondentes utilizadas para integração e mobilização do trabalho grupal.

        O processo de organização da rede de cooperativas para a ação intercooperativa se desencadeou a partir da reflexão, identificação e conceituação (prévia) das seguintes elementos :

        Visão de futuro: alinhamento das percepções dos atores sociais participantes e formulação de uma visão compartilhada de futuro para os próximos 03 anos, que incorporasse os valores e anseios de todos.

        Obstáculos: Identificação das barreiras a serem superadas para o alcance da visão de futuro projetada pelo grupo.

        Diretrizes Estratégicas: Definição das linhas de ação que deverão ser desenvolvidas para promover a realização da visão de futuro e superar o conjunto de obstáculos identificados.

        Plano de Ação: Seleção e planejamento das linhas de ação prioritárias a serem deflagrados nos próximos 03 anos com definição de prazos e responsáveis.

        Percebe-se que estes quatro itens na verdade indicam alguns procedimentos operacionais (não conclusivos) necessários para que os atores sociais tenham condições de :

         É importante destacar que na base metodológica desta proposta de organização da rede está subsidiada pela articulação de alguns pressupostos teóricos (o método das aproximações sucessivas, ecologia perceptiva (Piaget) e humana (vigotsky), ou seja, um processo tentativo de estabelecer com grupo de participantes e a partir da sua história uma linguagem comum, visto que o fato de atuar no mesmo setor produtivo não implica na existência de códigos e/ou uma linguagem comum .

        A seguir apresentamos comentando as etapas do processo de construção da ação intercooperativa.

ETAPAS 1 E 2 : VISÃO DE FUTURO E OBSTÁCULOS

         As primeiras etapas do trabalho: Visão de futuro e Obstáculos possibilitam uma avaliação geral e um progressivo detalhamento no conhecimento dos objetivos e da razão de ser da ação coletiva. Normalmente esta etapa possibilita identificar as idéias, as expectativas dos atores sociais que participaram do trabalho cuja intenção é trabalhar em conjunto estabelecendo as bases de uma ação coletiva

        A visão de futuro ao ser compartilhada permite atingir elevados níveis de legitimidade de representação do sistema, de relacionamento com associados e com o Estado, fortalecendo a intercooperação.

Atenção:

        Evitar que na análise das expectativas como da – visão de futuro – esteja pautada por mensagens que tem forte apelo emocional ou emulatório, tão comum nos planejamentos tradicionais.

        A etapa seguinte, segue os procedimentos tradicionais de identificação de obstáculos e/ou problemas enfrentados pelo grupo. Os obstáculos precisam ser classificados. Normalmente usa-se, para facilitar a qualificação dos obstáculos, as seguintes dimensões :econômico/financeiras ; sócio-gestionária.

        A dimensão econômico-financeira pode ser desdobrada nos seguintes indicadores:

OBSTÁCULOS – DIMENSÃO ECONÔMICO/ FINANCEIRA

Mercado

Financiamento

Endividamento

Credibilidade sistema

Liderança

Conflito entre os princípios cooperativo e a realização Não conhece as regras do jogo das autoridades monetárias Dificuldade integração e planejamento Credibilidade do sistema Não tem uma opção de líder para o projeto político
Descolamento da Produção, Descapitalização Custo do dinheiro Discurso desvinculado da prática Lideranças desgastadas -
Concorrência externa Custo do dinheiro O nível de endividamento alto desconfiança e não comprometimento) Pouca representatividade política

        Da mesma forma a dimensão sócio-gestionária pode ser desdobrada nos seguintes indicadores:

OBSTÁCULO – DIMENSÃO SÓCIO-GESTIONÁRIA

Imagem

Tecnologia de gestão

Associados

Informação/
Pesquisa

Legislação

Crise (imagem) Despreparo e gestão inadequada Baixo nível de consciência Dos associados Sistema de comunicação inadequado Legislação tributária
Não Intercooperação Falta modelo apropriado de gestão Distanciamento entre direção e associados Sistema de informação deficiente Desarticulação política -
Conflito entre cooperativas Produto descapitalizado Distanciamento do produtor e da cooperativa Falta de informação Alto subsídio externo

        Os quadros acima com seus indicadores buscam "reconstruir preliminarmente a realidade" através mobilização dos saberes do grupo.

        A compressão da realidade objetivada pelos "obstáculos" apresentados permite identificar, também, o modo como o grupo entende e classifica as restrições que se apresentam para uma ação coletiva que busca organizar a intercooperação.

        Esta reconstrução do real, se faz necessária e é importante, porque permitirá ao grupo identificar quais são aqueles elementos mais significativos para o segmento produtivo e/ou comunidade. É importante ressaltar neste tipo de proposta metodológica que o processo de discussão em grupo necessariamente tende a introduzir construções ideológicas que devem ser discutidas e analisadas, caso contrário dificilmente poder-se-á compatibilizar interesses para um agir coletivo.

        Diz-se que estas construções são pouco eficientes para definir metas específicas para ações a curto e médio prazo na área de gestão, mas o que interessa neste momento é identificar o "viés" reducionista e quais são os aspectos significativos ao grupo de trabalho. De fato, se por um lado, ao explicitar as "preocupações do grupo" a metodologia pode conduzir a uma grande diversidade de problemas de distintos níveis de importância, por outro lado, a natureza e hierarquia dada aos diferentes obstáculo remeterá o grupo a se deparar com a questão chave no trabalho de modelagem da ação coletiva: quem define as ações são mais importantes e/ou prioritárias para o setor e quem deverá criar/ assumir a direção da mudança desejada

        Outra consideração de caráter metodológico diz respeito a pergunta desencadeadora desta etapa de trabalho. Percebe-se que perguntas - amplas e gerais - são pertinentes porque buscam descobrir as intenções subjacentes até então não explicitadas nas falas dos participantes. Muito mais do que evidenciar para o grupo os pressupostos das situações bloqueadoras a idéia é que o grupo comece a conhecer os elementos que compõem a sua linguagem como grupo.

        Para chegar a uma concepção da totalidade, obviamente se requer e é preciso tempo. mais do que algum conhecimento prévio das partes componentes e de como elas se combinam. Por mais que o conhecimento prévio das partes seja importante ao planejamento de realidades complexas, é preciso ter presente que a complexidade do real não se deixa apreender apenas porque o sujeito está direcionado ao "fazer".

ETAPA 3DIRETRIZES ESTRATÉGICAS

       O objetivo desta etapa é de identificar as características principais, as potencialidades, as restrições e as tendências de uma dada realidade, isto é, uma vez explicitado os problemas mais determinantes, conhecidos seus elementos constitutivos é o momento de selecionar e ordenar aqueles processos e/ ou atividades que no entender do grupo podem dar conta dos propósitos de ação intercooperativa.

        Esta etapa busca nivelar o conhecimento dos participantes e estabelecer um patamar mínimo de conhecimento sobre a realidade a fim de evitar ações fragmentadas, isoladas e de pouca credibilidade na comunidade .

        As "Diretrizes Estratégicas" como apontam e devem ser entendidas como o modo de compreender a realidade do grupo de líderes de uma dada comunidade e/ou bairro e como eles pretendem "agir" para que o setor.

        Uma vez estabelecido o horizonte e realizado o diagnóstico, chega-se ao momento do prognóstico. Identificados os problemas presentes e potenciais grupo necessita formular e precisar as diretrizes que evitem a dispersão do esforço analítico. A seguir a título de exemplo apresentamos alguns elementos que permitem a visualização deste "que fazer" coletivo

DIRETRIZES ESTRATÉGICAS

PROJETOS DE SOBREVIVÊNCIA E ESTRATÉGICOS

Dimensão

Tipo

Objetivos

Política Estratégia/ Logística/ Insumos
Aliança/Negócios em Comum
Parcerias na Comercialização
Programa de Intercâmbio
Ações Integradas Regionalmente
Realizar negócios e operações em conjunto
Organização da cadeia produtiva
Escala, redução de custos, competitividade
Realizar negócios
e operações em conjunto
Fortalecer a identidade e os negócios intercooperativos e troca de experiências
Técnico gestionária /Banco de Dados
Pesquisa e Capacitação das cooperativas
Organização do Sistema
Unificação do Sistema
Maior produtividade, redução custos

Fomentar a inovação econômica no sistema das cooperativas

Instrumental - Administrativo Profissionalização da Gestão
Tecnologia de Gestão
Planejamento, acompanhamento e avaliação

Observações a respeito do quadro acima:

        A primeira diz despeito as suas "especificidades", isto é, os problemas e/ou dificuldades detectados que se definem não só o que é grave, mas também o que é urgente;

        O exame comparativo de ações e objetivos apontam para soluções que estas estão se propondo concretizar.

        As ações mesmo tendo um maior peso na dimensão política tem sua argumentação centrada nos fatores econômicos;.

4. Importante destacar que outros atores sociais pertencentes a comunidade precisam ser acionados.

        As propostas de organização em rede - como as que caracterizam a intercooperação - remetem para objetivos integrais e se referem ao desenvolvimento no seu sentido mais amplo e não apenas nos elementos de natureza econômica e/ou corporativa. Nesse sentido, o exercício grupal de estabelecimento das diretrizes permite reduzir a defasagem existente nos planejamentos "ex-ante", isto é, entre o esperado e aceitável (desejado) e o não aceitável (problemático) da realidade, por outro coletivamente construído.

ETAPA 4 : PLANO DE AÇÃO

         O objetivo desta etapa é "desenhar" as ações necessárias para alcançar um novo estado de relações entre as organizações cooperativa que no regime de relações e trocas atuais pautam-se pela fragmentação e isolamento. O significativo do "desenho" a ser buscado não está no detalhamento operacional, mas no fato dele objetivar soluções ótimas para a supressão ou substituição de relações existente entre as cooperativas do segmento.

        O quadro que segue tenta dar uma idéia do modo como o plano de ação pode se objetivar em projetos de ação

Projetos

Objetivos

Alianças Estratégicas Realizar negócios em conjunto visando a organização da cadeia produtiva e a redução de custos para aumentar competitividade
Organização do Sistema Implementar um modelo de estão colegiada com estratégias comuns e definições claras de comportamento
Profissionalização Profissionalizar a gestão das cooperativas e capacitar os associados
Recuperação de Resultados Viabilizar o sistema cooperativo através do equacionamento do endividamento e saneamento financeiro
Legislação Assegurar uma legislação que diferencie o sistema cooperativo de forma a recuperar sua competitividade

Considerações gerais sobre a metodologia (Limites e possibilidades)

         Como em toda atividade de concepção (desenho), percebe-se a reflexão dos grupos pode enfatizar as restrições que são impostas pela realidade, perdendo com isso a possibilidade de inovar. Os elementos da inovação ( imaginação e criatividade escapam do âmbito da racionalidade e nem sempre se enquadram em exercício lógicos e normatizadores como o proposto ao grupo.

        Percebe-se que nos projetos as ações propostas, não conseguem apontar para os elementos críticos (que sejam realmente críticos), porque:

Limites da proposta de ação intercooperativa em rede

        Conhecer os atores, isto é, os agentes que participam no processo de construção da ação coletiva e, em especial, aqueles que de alguma forma serão afetados pelas modificações que se pensa introduzir, não basta;

        Sistematizar a percepção do atores envolvidos no processo no qual se quer promover é apenas uma etapa preliminar que precisa ser validada, mas este processo de validação não se faz apenas com a presença de um ator social;

        Devem ser arrolados preferencialmente todos os "atores", individuais e coletivos, formais e informais, públicos e privados, de dentro da área ou de fora dela, que intervém ou que possam interferir nos processos de cooperação que se deseja implementar

3.Mapear a situação do atores internos favoráveis a uma ação intercooperativa nas diferentes organizações passa a ser fundamental para determinar a real capacidade de ação do grupo para alcançar os objetivos. Entretanto, o mapeamento de situações nem sempre explicitam as relações existentes- formais e informais - entre os diversos atores, além de ser de difícil operacionalização.

4. Reconhecer e demarcar os limites da competência dos atores sociais, o modo e a área de atuação dos agentes é fundamental para a implementação das estratégias de ação , mas implica no identificar e trabalhar as resistências ao novo, o que é muito difícil num curto espaço de tempo de encontros ou reuniões. Os comportamentos de rivalidade e competição estão há muito internalizados nas práticas sociais e reforçados pela lógica da competitividade econômica.

        Organizar ações intercooperativas em rede implica em ações cujos efeitos ao nível das comunidade nem sempre são possíveis de serem antecipados, porque as comunidades que estão em diferentes patamares tecnológicos e econômicos.

        Estes efeitos são distintos a cada nível. Da mesma forma um problema considerado muito grave ao nível de uma localidade pode não ser considerado muito significativo ao nível de sua região

Possibilidades da proposta de ação intercooperativa em rede

        A metodologia tem possibilidades na medida em que promove uma praxis coletiva que inclui:

1) uma forma grupal e interativa de realização e resolução das tarefas expostas;

2) a inclusão desde o início, na equipe, de representação dos órgãos de gestão, direta ou indiretamente envolvidos na execução das ações programadas;

3) o cuidado na formação de grupos heterogêneos com saberes e capacidades interdisciplinares;

4) a intervenção co-participativa de outros atores entre os quais podemos colocar os "tomadores de decisão" e os formadores de opinião das comunidades envolvidas e também a população alvo das ações.

        Neste sentido "ação planejada" e "planejamento" passam a ter outro significado, não se caracterizando apenas como um exercício lógico de definição e escolha das ações que a partir de uma perspectiva política antecipam resultados esperados, mas como processo modeladores de realidades particularidades intervêm atores concretos, a reconstrução da realidade.

        A metodologia enfatiza os aspectos processuais e de mudança, concorrendo para que os participantes percebam a sua realidade como sistemas permanentemente abertos em um porvir histórico; a ênfase dada aos processos permite incorporar os aspectos dinâmicos de diferentes tempos - o tempo sociológico, o tempo econômico, o tempo das relações, etc.

Conclusão

        Na América Latina em especial nos setores de organização cooperativa existe um grande interesse em tudo que diga respeito a alocação de recursos em programas que operacionalizem propostas de intercooperação, visto que as condições de vida da população na área de influência geo-política dos países do Mercosul, em conseqüência da crise dos anos 90, se precarizaram e consequentemente se acelerou o processo de exclusão social. Desse modo passa a ser fundamental buscar compreender e reforçar ações que possam reduzir a consolidação desta "sociedade de risco".

        Nesse sentido, a análise de metodologias de intervenção social (modelação da realidade) pode ajudar a multiplicar os resultados de eficiência e efetividade.

        Partimos do pressuposto que não é possível que uma proposta de política social – organização da intercooperação - seja efetiva e que utilize eficientemente os recursos existentes, se não se dispõe de uma análise objetiva dos instrumentos que buscam operacionalizá-la. Não bastam os relatos processuais ou as descrições quantitativas de metodologias de ação.

        É necessário, também, possuir outras informações que permitam a interpretar estes instrumentos de ação coletiva. Assim, o diagnóstico das metodologia de organização da ação coletiva devem ser feito levando em conta que os processos de elaboração de decisões sociais exigem qualificar os instrumentos e o ferramental técnico.

        Dito de outro modo, muitas vezes as propostas de organização da ação coletiva utiliza (e abusa) da noção de participação no seu sentido adjetivo, argumentando que a operacionalização do planejamento, em si, já é um exercício de participação e democracia.

        Este é o aspecto paradoxal do planejamento da ação coletiva, porque de um lado isto é verdade. Aplicar modelos de ação coletiva pode ser uma exercício de democracia, mas por outro lado, também poder ser um ritual que oculta os mecanismos que permitem a tomada de decisão de diferentes atores sociais.

        Na verdade, o conflito emerge porque as soluções são pautadas por perspectivas técnicas que desconsideram e não reconhecem a existência de uma a) espaço público de decisão que não se restrinja ao político partidário ou governamental, b) de uma metodologia que permita aos participantes expressarem seus diferentes saberes e dela se apropriarem.

        Nos parece que o problema está em definir com precisão os espaços de decisão, porque o alcance de resultados econômicos e sociais depende não só de uma dimensão técnica, mas sobretudo de um exercício de poder que não reduz a participação em um exercício de declaratório de fins e metas de um projeto.

        Nessa perspectiva projeto de organização de redes cooperativas é apenas instrumento, meio que pode ser considerado quando se pensa o Movimento Monetário Mosaico e deve ser entendido como processo de condução e integração de realidades, de estatuto diferentes e, portanto, processo essencial de transformação do real e de transformação da identidade dos atores sociais que dele participam.

        E, nesse sentido passa ser uma prática social inovadora.

7.1.e - MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA (MST)

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