Movimento Monetário Mosaico

8.1 – FOMENTO

        No Método "FOMENTO", o microcrédito é acompanhado pelo desenvolvimento de um instrumento de intercâmbio (moeda social) no qual se expressa o poder aquisitivo local.

        Assim, o microcrédito fortalece e dá mais oportunidades ao comércio local e portanto, à economia local.

O microcrédito: vantagens e desvantagens

        O microcrédito dá as pequenas empresas locais a possibilidade de investir no seu futuro. Aqui, é preciso colocar uma questão crítica: uma vez que o microcrédito é dado em dinheiro capitalista, com juros, e uma vez que a demanda aquisitiva local é limitada, as capacidades empresariais vão se dirigir, direta ou indiretamente, fora do mercado local. Assim, como efeito do micro-crédito, uma parte da energia empreendedora e desligada da construção de uma estrutura socio-economica local.

        As possibilidades para novos empresários locais estão muito limitadas em virtude da quantidade limitada de dinheiro circulando localmente. O poder aquisitivo local tende a fugir facilmente, do povoado ou do bairro: quando as compras são feitas fora da comunidade este dinheiro desaparece da circulação local, e não pode facilitar trocas locais. (veja capítulo 3.1 - Causas da Pobreza)

        E justamente a troca local, junto com a cooperação e especialização local que são importantíssimas para fortalecer a estrutura social local. Além disso, é prejudicial para o empresário que pediu crédito emprestado: quanto menor o poder aquisitivo local, quanto mais difícil será ganhar dinheiro para reembolsar o crédito (e mais os juros!).

        Portanto a questão é como implementar o valioso instrumento do microcrédito e ao mesmo tempo desenvolver a estrutura financeira e social e um poder aquisitivo dirigido para um mercado local

Esta pergunta constitui o foco de atenção da metodologia FOMENTO.

Objetivo

        O objetivo do FOMENTO é o de deter a fuga do dinheiro, prover as empresas locais com crédito e com uma demanda aquisitiva e o de realizar um aumento equilibrado entre a economia formal, a estrutura local e a economia local.

        No FOMENTO a estrutura social, o microcrédito e o comércio local mutuamente se fomentam.

        O método FOMENTO parte de um fundo disponível. Um fundo que vai dirigido a um projeto ou a uma atividade que irá fortalecer a estrutura social. Isto pode ser a construção duma escola, um centro comunal, ou outro projeto social. Normalmente, o dinheiro usado para tal projeto mudaria uma ou duas vezes de dono localmente para depois sair do povoado ou bairro pobre.

        Com o método FOMENTO se retêm o poder aquisitivo do dinheiro dentro da comunidade durante mais tempo.

         Como realizar isso?

        Em vez de investir o fundo diretamente, o dinheiro e substituído por um circulante local. Formas para substitui-lo são: pô-lo em circulação em forma de cheque ou trocá-lo por dinheiro imprimido localmente (sob algumas condições). A moeda social que foi criada desta forma será usada para realizar o projeto social. O fundo agora é emprestado aos pequenos produtores locais, baixo a condição que eles podem devolver o crédito usando a moeda social.

        Os empresários locais que usam a moeda social usam para amortizar o seu microcrédito podem fazê-lo por 100% do valor original.

        Então, o projeto social recebe seu dinheiro imprimido localmente, e com ele paga os custos locais.         Assim, o fundo fica disponível e é emprestado como microcrédito aos empresários locais. Uma vez que estes têm a permissão de reembolsar o crédito em moeda local, aceitarão estas unidades locais para seus produtos por o mesmo valor que a moeda nacional. É este respaldo, o das empresas locais aceita-la que faz que a moeda social e aceitada pêlos produtores do projeto social.

        A esta altura, o efeito do fundo será pelo menos o dobro. A atividade local terá recebido um impulso, tanto através do crédito de investimento como também através de um poder aquisitivo local fortalecido, e um projeto local terá sido realizado utilizando pleno emprego.

Descrição detalhada

        Nas práticas convencionais, o dinheiro gasto num projeto social (por exemplo, a construção duma escola, um programa educativo, a construção de um sistema de esgoto, um programa de emprego) desaparece rapidamente do circuito local.

Gráfico 8.1.1 - Figura 1:

 
        Inclusive se o projeto se realiza principalmente com material local (trabalho, materiais, empresas), o poder aquisitivo que se gera tende a desaparecer do circuito local dentro de um ou dois ciclos, especificamente no momento em que as pessoas compram serviços e bens que foram produzidos em outro lugar.

        Mas, um objetivo foi cumprido: realizar o projeto.

        O método FOMENTO tenta pagar a maioria dos custos do projeto em moeda social, a que se cria especificamente para este propósito. O mais provável é que isto funcionará só para uma parte dos custos, e que insumos externos terão que ser pagos em dinheiro nacional. Neste exemplo porem, nos centramos na moeda local, e trabalhamos na situação hipotética que 100% dos custos do projeto são pagos em moeda FOMENTO.

        Aqui o projeto está financiando em moeda local, enquanto o dinheiro disponível para este projeto é emprestado aos empresários locais (na forma de micro-crédito).

Gráfico 8.1.2 - Figura 2:

        Dois movimentos foram desencadeados: por um lado, os empreendedores locais foram estimulados com capital, por outro, o projeto tem metas sociais e cria empregos.

        Já que os empresários locais podem pagar suas dívidas (micro-créditos) em moeda local, estarão dispostos a aceitar esta moeda. O dinheiro emprestado aos empresários não tem sido marcado e em conseqüência disso vai desaparecer da circulação local com a mesma velocidade que o dinheiro na figura 1.

        As unidades locais utilizadas para pagar a realização do projeto encontrarão seu caminho em direção aos empresários locais.

Gráfico 8.1.3 - Figura 3:

        Já que existe a segurança de que os empresários locais vão aceitar estas unidades locais, outros irão aceitá-las também, porque sabem que será possível gastar as unidades que recebem.

Gráfico 8.1.4 - Figura 4:

         Os empresários locais não só adquiriram o crédito que precisavam, mas também asseguraram as vendas, já que o poder aquisitivo local foi reforçado e está dirigido diretamente até eles. Isto torna mais atrativo produzir para o mercado local. A moeda local encontra seu caminho de volta em direção á a organização do FOMENTO em forma de cancelamento dos micro créditos. Este micro-crédito bem sucedido é o primeiro fomento.

        O segundo fomento consiste em que, ao mesmo tempo, a moeda local tem facilitado as atividades econômicas no circuito local.

        E claro: o projeto original também foi realizado.

        Finalmente a moeda social retorna à organização que financiou o projeto, como pagos dos micro-créditos dos pequeno empreendedores locais. Esta moeda agora não tem mais respaldo, os papeis porem não tem mais valor comercial.

Gráfico 8.1.5 - Figura 5:

        Como e quando aplicar o método FOMENTO?

        Um fluxo contínuo de dinheiro que utilize o método FOMENTO, seria muito bem vindo para fortalecer, da maneira mais efetiva possível, a estrutura social a nível local, a troca local e a disponibilidade de bens de capital e de matérias primas.

        A primeira fonte de dinheiro mais óbvia é o governo local, que deveria usar seu orçamento tanto quanto lhe é possível, pela intermediação do FOMENTO, para diminuir a saída de dinheiro fora da cidade.

        Em ocasiões, financiamentos de organizações de ajuda estrangeiras estão disponíveis. Se doadores tem doado dinheiro para micro-crédito e não esperam, ou só em parte, receber o dinheiro de volta, o método FOMENTO pode usar este dinheiro muito efetivamente, tanto para realizar projetos sociais quanto para respaldar a moeda local como liquidez extra junto com o micro-crédito.

        Para realizar um FOMETNO de forma responsável é absolutamente necessária que as organizações que lhe financiam tenham uma trajetória profissional trabalhando com fundos perdidos e micro-créditos. A sociedade de Financiamentos de Mini-Projetos (Curitiba, Porto Alegre) por exemplo, pode fortalecer o efeito social e econômico de seus financiamentos. Outras organizações estão também interessadas em reforçar o vínculo entre micro-crédito e moeda local. Também os fundos perdidos da Caritas, ou de outras organização que trabalhe com a mistura de micro-créditos e fundos perdidos pode trabalhar com este método, fomentando não somente as empresas ou somente os projetos sociais, mas as duas numa dinâmica sinergica.

        O projeto para realizar com o método FOMENTO deve ser preferivelmente um projeto social, executado na maior parte possível por agentes locais. Os micro-créditos devem beneficiar os produtores locais que estejam diretamente ou indiretamente ligados aos executores do projeto social.

Coerência com outras iniciativas

        Além dos gastos do governo local e do dinheiro de ONG’s, existe outra fonte potencial para financiar os projetos FOMENTO. A cooperação no marco de uma economia solidária pode trazer um fluxo monetário independente (veja item 7.1.d). Este dinheiro poderá ser liberado na condição de que as cooperativas consigam utilizar efetivamente o poder aquisitivo dos consumidores locais. A contribuição do método FOMENTO na cooperação é principalmente o fortalecimento da estrutura econômica e social local. Isto é um elemento necessário para realizar os objetivos da economia solidaria. Redes de trocas inter-empresariais podem fundar sistemas de FOMENTO.

        O método FOMENTO utiliza uma certa quantidade controlada de moeda local. Este montante será geralmente inferior às necessidades reais da moeda local (mais moeda local e necessitada que o monto inserido pelo sistema FOMENTO). Esta brecha poder encher-se de moeda que circule pelo método dos clubes de troca. O essencial é que este montante seja monitorado em forma contínua e interrompido se surgir inflação.

        Poderíamos colocar, às unidades emitidas, o mesmo nome que às unidades dos clubes de troca, ou aceitar e entregar qualquer unidade de troca, mas isto significaria dar muitíssima atenção á regulação da moeda local em circulação.

        Em situações onde o método de FOMENTO se combina com uma rede de troca, os participantes da troca têm maior acesso aos bens e serviços que se pagam geralmente em moeda local. Se os empresários vêem que estão tendo moeda local demais, vão inevitavelmente trocar e cobrar porcentagem na moeda local.

        Se não há sistema local de troca,, uma experiência piloto de FOMENTO poderia ser uma excelente introdução a este tipo de iniciativa e pelo tanto promover a existência de moeda local.

        O FOMENTO está respaldado 1 contra 1: cada unidade local emitida está respaldada por uma unidade em moeda nacional. Outras experiências do MoMoMo também tem este lastro, ou usam um respaldo em capacidade produtiva. Se os lastros sejam comparáveis, as diferentes moedas podem circular em diferentes sistemas ao mesmo tempo.

Conclusão

        FOMENTO é um enfoque que coloca a dinâmica da comunidade muito enfaticamente no centro, já que tem como princípio de partida a construção equilibrada da especialização e da cooperação das estruturas sociais, a troca local e os investimentos em empresas locais.

        O FOMENTO fortifica o efeito do micro-crédito, gerando um poder aquisitivo local. Ao mesmo tempo fortifica o efeito de projetos sociais, gerando atividade econômica local. Desta forma o micro-crédito respalda o projeto social, e a circulação local respalda o micro-crédito.

        O FOMENTO tem uma posição estratégica e tática no desenvolvimento do Movimento Monetário Mosaico, porque cria uma circulação local baseada em moeda social. Investimentos do MoMoMo podem ser realizados usando o método FOMENTO e assim fortificar as moedas locais.

8.1.a - UM EXEMPLO: O SISTEMA M.I.D.A.$.
(Moeda Indutora do Desenvolvimento Auto-$ustentável)

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